Fundação Maitreya
 
Khajuraho

de Rohini Sharma

em 09 Out 2006

  Era um oásis mo meio do nada. Um lago enorme rodeado por palmeiras de damascos; serenidade juntamente com lânguida lentidão envolvia toda a cidade de Khajuraho cidade capital da poderosa dinastia de Chandela. Mas isso era há milhares de anos atrás, Hoje em 2005, tudo o que resta do desenho dessa perfeita paisagem que é uma pequena vila, quente e poeirenta, são os magníficos templos de Khajuraho que se elevam como um Fénix das ruínas de uma cidade.


Onde o Sensual Encontra o Sublime

Eles se encontram aninhados nas bordas do centro da Índia, em Chattarpur, no distrito de Madhya Pradesh. Na realidade, foi a obscuridade desse local que salvou os templos de Khajuraho da pilhagem dos exércitos. E, mesmo depois de milhares de anos, a natureza não destruiu com aquela espécie de selvajaria que os invasores teriam causado durante a era medieval.
A Dinastia de Chandela subiu ao poder no século XX a.C. e continuou o seu reinado durante três séculos.
Embora não se saiba muito, acredita-se que eles eram chefes de uma tribo local da Ásia Central que conquistaram o poder da dinastia Pratihara que governava na região.
Eles eram apenas grandes guerreiros, mas também grandes patrocinadores da arte e arquitectura, e os templos de Khajuraho são uma manifestação da sua inclinação pela estética e religião.

Khajuraho é o símbolo da grandeza da arquitectura do templo medieval na Índia. E é, como Percy Brown, historiador de arte indiana, disso, “É uma das manifestações mais refinadas e acabadas da arquitectura indiana no estilo indo-ariano”. Os templos de Khajuraho apresentam milhares de cores da vida que foram vividas durante a dinastia Chandela.
O trabalho artístico impressionante e a complexidade são documentos silenciosos da arquitectura ma pedra naquela época.
Mas os toques finos da vida do dia a dia nunca interessaram muito às pessoas. A natureza do homem de olhar pelo prazer foi sempre atraída por algo que foi imortalizado na pedra em Khajuraho – o Eroticismo.
As estruturas religiosas decorativas com desenhos sexuais na Índia não são nada novos, foi um factor constante na arquitectura do templo, pois demonstra a continuação da vida e dizem que afugenta o mal, a morte e a infelicidade. Acredita-se que os rituais da fertilidade promovem a riqueza e a boa fortuna.

Então, porque é que a mente conjura imagens de Khajuraho, quando o erótico é mencionado? Talvez, porque elas demonstram a celebração da união com alegre abandono que o público fica admirado e boquiaberto. Na realidade, a escultura erótica prevalente nos templos nunca foi apresentada na sua cara de maneira tão crua. Elas foram feitas para afugentar o mau-olhado mas, geralmente, misturou-se com a arquitectura em geral. Só em Khajuraho eles têm uma vida própria. Existem muitos mitos e lendas que especulam a natureza carnal clara das esculturas, mas elas são na maioria folclore.
Muitas teorias sugerem que foi uma estratégia para atrair as pessoas aos templos, porque por volta do século XI d.C., o Budismo dava grandes passos como uma religião, e os padres hindus estavam preocupados com a falta de interesse pelo Hinduísmo. Era também uma lição instrutiva tridimensional, como o Kāmasūtra, para assegurar uma vida conjugal saudável para os jovens rapazes hindus que passavam a maioria do início da sua vida, longe da família, estudando nos āśrams.

Os prazeres carnais, necessitados de ser aceitas por eles um dos aspectos da vida doméstica, eram procurados para serem projectados como aqueles que conduziriam, no decorrer do tempo, para um patamar alto e mais espiritual!
O tantrismo também influenciou a ornamentação estrutural nos templos a partir do século V d.C.; acreditava-se que o coito não era um simples acto de prazer carnal, mas era um acto de libertação da alma – a união de Śaktī e Puruṣa (manifestações femininas e masculinas da deusa e do deus) no estado final da não dualidade. Eles eram aspectos gémeos da personalidade divina, tentando sempre ganhar novamente a unidade primeira. As práticas tântricas ofereciam o que era limitado pela religião.
A verdadeira razão dessa apresentação erótica, talvez, nunca será conhecida, mas uma coisa é certa, Khajuraho nunca deixa de cativar e encantar o seu público.
Embora apenas 22 dos 85 templos originais tenham sobrevivido às vicissitudes do tempo, porém eles são um espanto. Espantosamente, todos os templos foram completados durante um curto prazo de tempo, de cem anos, a partir de 950 d.C até 1050 d.C.
Se os templos de Khajuraho têm um tema, então podemos dizer que é a mulher. A celebração da essência da mulher e as imensas facetas e temperamentos – escrevendo cartas, pintando os olhos, escovando o cabelo, dançando alegremente ou apenas brincando com o seu filho. A mulher: voluptuosa, sensual, sedutora e ao mesmo tempo desarmadamente inocente.

Esses templos possuem um distinto carácter arquitectural, diferente de qualquer outro grupo de templos em outra parte do país. Em vez de permanecerem dentro das paredes, cada templo foi erguido num elevado e sólido terraço de pedra sobre o qual foram construídas as paredes dos compartimentos interiores. Eles têm também janelas com Canopos e varandas para permitir que o ar e a luz penetrem no interior. Embora, nenhum dos templos seja muito grande, eles são ainda construções majestosas por causa das suas proporções elegantes e graciosas e rica escultura da superfície.
Os antigos templos de Khajuraho foram construídos com granito rafeiro. Mas, os mais famosos – incluindo os monumentos do Património Mundial conhecidos como templos do Grupo Ocidental – foram na maioria construídos com pedra de grão fino de cor vermelha e amarelo pálido da pedraria de Panna, situada em local próximo. Os templos pertencem a diferentes seitas religiosas como Shaiva, Vaishnava e Jaina e marcam o apogeu do indiano do norte ou estilo Nagara da arquitectura do templo.

O Kandariya Mahādeva é o chefe do templo Śiva no grupo ocidental; o templo de Lakṣhamaṇa é Vaishnava – também do grupo ocidental, ao passo que Pārśvanātha é o Maior templo jainista do grupo de leste.
Os templos são majestosos com muito espaço entre eles para caminhar. Os quartos interiores estão interligados e colocados na linha leste-oeste. Cada um tem uma entrada, uma sala, um vestíbulo e um santuário. Foram adicionadas janelas grandes aos templos para oferecer senso de espaço e iluminação.
As aberturas, com arcos extremamente trabalhados, estão voltadas para o leste. Os tectos do interior foram esculpidos com flores e desenhos geométricos. Os telhados, uma série de picos gradualmente divididos parecidos em toda a probabilidade como uma cordilheira, representam a possibilidade de níveis elevados que a vida espiritual pode alcançar. Cenas eróticas prevalecem em todas as esculturas. Geralmente, as indulgências baixas aparecem em lugares mais baixos dos templos ao passo que as divindades aparecem perto do topo. A maioria das estátuas tem cerca de um metro de altura.

No grupo ocidental dos templos, o Kandariya Mahādeva é a espécie mais perfeita da arquitectura Chandela. Dedicados ao senhor Śiva, eles se elevam a uma altura de 31 metros. O santuário abriga o liṅgam, ao passo que o principal santuário foi enfeitado com esculturas e mostram vários deuses e deusas em detalhe elaborado. O arco da entrada, as grandes colunas e tectos foram decorados com esculturas eróticas.
Para além do arco de Kandariya Mahādeva encontram-se seis compartimentos interiores, o pórtico, sala principal, transepto, vestíbulo, santuário e ambulatório. Há 646 imagens nas paredes externas, cada um deles é um modelo perfeito de rara sofisticação. As paredes externas do transepto têm três painéis horizontais que apresentam as divindades do panteão hindu, e grupos de amantes, um desfile de sensualidade, que é vibrante e vivo.
Chausat Yogini é o templo sobrevivente mais antigo, em Khajuraho, e tem 64 celas que pertencem à deusa Kālī e aos seus 64 suportes Śaktīs. O agachamento, a forma maciça das imagens tem pouca decoração, mas está repleto de uma característica com um elemento de energia asperamente tirado das antigas esculturas de Khajuraho.

Construídos à apenas 50 anos depois de Chausat Yogini, o templo de Lakṣhmaṇa demonstra um importante desenvolvimento na técnica e no plano em comparação aos templos antigos. A viga na entrada desse templo dedicado ao Senhor Viṣṇu demonstra a santa trindade de Brahman, Viṣṇu e Śiva com a deusa Lakṣmī, companheira de Viṣṇu. O santuário foi enfeitado com o ídolo de três cabeças das incarnações de Viṣṇu incluindo Nārasimha e Varaha. O segundo, a incarnação do porco-espinho, também aparece como estátua de três metros de altura no Templo de Varaha.
O templo de Chitragupta foi dedicado ao Deus do Sol ou Surya. Esse templo está virado para o leste, para o nascer do sol. O interior do santuário orgulha-se de uma imagem impressionante da divindade presidente – um majestoso Deus do Sol com cinco pés de altura dirigindo uma carruagem.

O templo de Viśvanātha abriga a imagem do Senhor Brahman com três cabeças. Os leões guardam a entrada da construção localizada ao norte, enquanto os elefantes ladeiam a escadaria ao sul que conduzem para o templo. Os exteriores foram elaboradamente esculpidos e o Templo Nandi, voltado para o santuário, tem um enorme touro chamado Nandi, com seis pés de altura, montado pelo Senhor Śiva.
O Templo de Matangeśvara abriga um dos maiores Śivaliṅgas da Índia. Com oito pés de altura e quatro polegadas de altura e 20 pés e quatro polegadas de diâmetro, ele ocupa toda a área do chão na sala principal.
O Matangeśvara é o único templo onde os devotos ainda se juntam para venerar os Śivaliṅgas como se tem feito durante muitos séculos.
O Templo de Pārśavanātha do grupo do leste, é o maior dos três templos Jainas. A imagem de Ādinātha de mármore preto no santuário foi colocada em 1860. Ele tem esculturas maravilhosas de casais divinos e damas celestiais. As mais exóticas são a de Śiva-Pārvatī, de uma linda mulher tirando um espinho do seu pé e outra pintando os seus olhos.

O Templo de Ghantai é um dos templos mais fascinantes de Khajuraho e muito pouco se sabe deles. O templo foi nomeado pelos esqueletos das suas colunas, cada uma delas esculpida com desenhos de sinos e correntes. Ela tem uma borda que apresente os 16 sonhos da mãe de Mahāvīra, uma deusa com vários braços montada sobre um Garuda com asas.
O último dos templos Jainas foi dedicado ao santo jaina chamado Ādinātha; ele foi lindamente enfeitado com esculturas de yakshis e outras. A imagem de Ādinātha no santuário é moderna.
O grupo de templos ao sul encontra-se a cinco quilómetros de Khajuraho. Nesse grupo, o templo de Duladeo foi dedicado ao Senhor Śiva. O aspecto mais relevante desse templo é as imagens sensuais das apsarās ou damas divinas. O templo de Chaturbhuj. É o último dos templos de Chandela, O santuário tem a mais exótica imagem de culto de Śiva com nove pés de altura, uma obra de arte de Khajuraho.
Os templos de Khajuraho apresentam, assim, um testemunho do tempo glorioso da Índia medieval.
Os templos não são apenas uma maravilha arquitectural, mas também estão cheios de divindade. Até o duvidoso volta atrás – convertido pela magnitude da devoção e dedicação com que o mestre escultor colocou no trabalho enquanto venerava o seu Criador.

Celebrando a essência da mulher…

Os templos de Khajuraho celebram a essência da mulher em todos os seus milhares de aspectos e temperamentos. As formas são cheias e generosas, a mulher é o símbolo óbvio da fertilidade. As atitudes são graciosas mas repletas de humildade e respeito; os rostos impessoais, já que as energias de Deus são indiferenciadas no absoluto. O corpo feminino representa toda a criação: surgindo da matéria crua, ela gradualmente se liberta e atinge o apogeu numa espécie de idealização do espírito interior, cuja escalada está incorporada nas curvas da espinha.
A espinha, de acordo com as teorias Tântricas existentes na dinastia de Chandela, é comparada com a serpente de energia (kuṇḍalinī) alargando-se da base do sacrário para cima da cabeça apoiando as seis fases da evolução espiritual que o discípulo desenvolve um após outro para transmutar a sua energia sexual (que é a energia da vida) em pura espiritualidade, atingindo assim a união com o divino.

A graça do corpo humano é exposta em todos os seus aspectos e as esculturas oferecem uma expressão total à variedade das suas atitudes. A ênfase está na beleza dos corpos, graciosidade das posições e seu significado no aparentemente bana, acções do dia a dia, tais como admirando-se a si própria no espelho, pintando os olhos, pintando os pés, brincando com animais, escrevendo cartas, tirando espinho do pé e dançando, etc. Para o arquitecto e para o escultor, o devoto deve-se libertar do desejo para se entregar à meditação da beleza pura das energias divinas representadas por essas mulheres em posições diferentes.
A mulher ou a jovem é honrada em todas as formas imagináveis, pois ela é a Śaktī, a futura mãe que dará existência à vida através da união com o seu homem. E os templos de Khajuraho são um tributo em sua honra …
Cortesia da Revista India Perspectives
   


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