Fundação Maitreya
 
Portugal – Que missão!

de Eurico Ribeiro

em 13 Abr 2009

  (Um ensaio)
A época sombria em que vivemos tem sido paradoxalmente um motor de esperança, em virtude do aparecimento de muitos indícios que levam à redescoberta do país onde nascemos, dos nossos antepassados, e das verdadeiras potencialidades que possuímos. Como portugueses que somos, descendentes da “ínclita geração”, espero que sejamos merecedores ou capazes de levar por diante a missão à qual por destino nos encontramos ligados.


Quinto Império “O Português é um ser plural e é nessa pluralidade que ele tem que se afirmar”.
Agostinho da Silva

Introdução

Estou de acordo, quando se fala da letargia e da falta de esperança que tem assolado o povo Português, sentimento que podemos constatar ao nível individual, bastando para isso sair um pouco da rotina e tomar consciência da realidade – da nossa realidade. Esse tempo de introspecção é necessário para observar o nosso estado de alma, para compreender o que realmente somos e valemos ainda como povo milenar, e para constatar o desvio que já temos dessa génese primordial: o fim do sentido de missão como povo activo da linha da frente a simples servidores passivos medíocres dos interesses alheios à nossa história e ao nosso propósito de ser e de estar num mundo em que demos início ao projecto de Globalização.
É importante começar por referir que este sentimento letárgico e de um certo fatalismo endémico, não é de agora, refiro mesmo que é cíclico: a exuberância, a melancolia e o fatalismo. Curiosamente ou talvez não, o nosso país desde a sua fundação tem apresentado ciclos de queda que põem em causa a sua soberania como projecto-nação independente aproximadamente de 200 em 200 anos: 1383 - Crise do Interregno, 1580 – Dinastia Filipina, 1800 – Invasão Francesa e a Guerra Peninsular e 1986 – Adesão à então CEE. Mínimos vibratórios, matematicamente falando, durante os quais a alma portuguesa é obrigada a uma longa hibernação... emergindo nessas alturas a “sua mística” pelos nossos utopistas, filósofos e poetas: foi assim com Bandarra, com Luís Vaz de Camões, com o Padre António Vieira, com Fernando Pessoa, com o Agostinho da Silva, bem como muitos outros. É nessas alturas que aparecem os soldados da pena...

O reconhecimento da mudança de paradigma CEE-CE-EU
Não podemos ocultar o facto de que a adesão à CEE, cuja designação passou por CE e hoje é EU, tem sido uma falácia se fizermos um exercício de memória sobre as vantagens e expectativas de Portugal quando em 1986 assina o pacto comunitário. A adesão ao organismo europeu além de se ter reduzido ao paradigma económico, consubstanciado em regras políticas conjunturais, corre o risco de se traduzir na prática e por essa via, no princípio do fim das soberanias Europeias, concomitantemente a nossa (desagregada que ficou do processo de civilização lusófono que deu início), com a ratificação do recente Tratado de Lisboa. A mudança da designação acompanhou a alteração de paradigma dado que inicialmente de comunidade de países soberanos, passámos a uma união onde se perfilam já os contornos de regiões e relações económicas interregionais fronteiriças. O sistema de regiões, promovido estrategicamente pelos interesses estruturais da UE, irá surgir no plano territorial a partir do provável fraccionamento de alguns países pelas suas idiossincrasias étnico-culturais latentes. As regiões desta feita irão emergir, como último reduto, lutando na defesa da identidade comunitária, no sentido da sua autodeterminação cuja força é agora acrescida face ao enfraquecimento das soberanias nacionais, e o distanciamento de poderes transferidos para Estrasburgo.
A livre circulação de pessoas, no espaço comunitário, com a atracção das melhores inteligências nos locais mais desenvolvidos do ponto de vista económico e financeiro, irá provocar a médio prazo por um lado a miscigenação dos povos com a perda total de identidade e cultura e por outro o empobrecimento regional mais acentuado ao nível do valor humano. A polarização migratória para centros mais desenvolvidos e ricos por intermédio dessa procura e da concentração de meios e recursos, irá provocar a vacuidade nas regiões menos procuradas que são hoje reconhecidamente pobres, mas que ficarão ainda mais pobres, e na dependência total dos subsídios, que virão em troca de mais empobrecimento e dependência. Neste aspecto é relevante por um lado a unidade do povo português continental e insular e por outro o reforço de identidade lusófona com todos aqueles que subscreveram o pacto da CPLP, de modo a que não só as fronteiras do berço da portugalidade se mantenham inalteráveis em todo o processo que se venha a desenhar como se possa proceder ao desenvolvimento nacional em articulação com os seus pares da lusofonia, em especial o Brasil. É necessário que se tomem medidas de manutenção e fixação dos melhores indivíduos, na prestação de serviços à sua comunidade, bem como políticas culturais baseadas na história e na missão Portuguesa agora transferida ao plano da lusofonia, a fim da tradição ser de tal modo demolidora que quem decidir ficar entre nós, terá não só que aprender o português, como ter acesso aos nossos costumes e respeitar os nossos valores, tal como acontece nos países nórdicos. Essa unidade só será possível através de um líder natural que se torne o símbolo de uma união económico-cultural com os restantes países da lusofonia, relembrando o conhecimento prático da nossa história, adaptando-a à actualidade e projectando-a no futuro.
É necessário ter a humildade de reconhecer que nunca Portugal necessitou dos países que criou pelo mundo, como hoje. E essa necessidade passa mesmo pela própria defesa cultural e económica da “região berço” da lusofonia. Nesta perspectiva a Europa tem que deixar de ser importante para Portugal, temos que saber sair debaixo da “asa protectora”, estabelecendo-se o oposto, em que Portugal por direito um parceiro com importância muito acima da sua dimensão territorial, afirmando-se como a porta de entrada do espaço económico lusófono na Europa ao nível económico e um motor de criatividade e de inovação.

Quem é o Povo Português
O povo português sofre de atavismos próprios de quem já foi grande… a queda no abismo leva à melancolia e à depressão, esse saudosismo que o Pessoa refere como sendo do Futuro, reflexo de um passado incompleto! Este é o nosso Fado…

Contrariamente ao que é referido comummente, o povo Português não é ingovernável nem se pode dizer que não se pode esperar muito dele. Quando o povo português se torna ingovernável e contrário às políticas vigentes, significa que estas são naturalmente desajustadas ou insustentáveis, emergindo o princípio paradigmático de auto-preservação e de auto-regulação, subjacente a uma sabedoria ancestral gregária que funciona como um corpo só através do seu subconsciente colectivo, tal como um cardume de milhares de peixes que se movimenta num todo e quase por instinto face a um qualquer perigo externo!
Há um dizer em Sintra que expressa: “Nascer em Portugal ou por missão ou por castigo!” É um facto que o povo Português não nasceu para seguir os outros e cumprir as suas regras, mas para “andar à frente do mundo”, para dar “novos mundos ao mundo” – não é um povo de terra mas um povo de mar... Dêem uma missão impossível ao Português e ele é eficiente, dêem-lhe uma rotina e ele desinteressa-se e torna-se improdutivo. Falando de produtividade, ela não pode ser um objectivo principal para o povo português, mas secundário: falem de missão, tracem um rota e mostrem um destino por mais impossível que seja, que o português saberá lançar mãos à obra e a produtividade aparecerá consequentemente como por milagre! Gostaria de pedir aos governantes e gestores para que conheçam o povo que governam ou os trabalhadores que dirigem antes de implantarem as técnicas e métodos desenvolvidos noutros quadrantes pelos gurus da moda, que são efémeros, que se têm mostrado ser comprovadamente ineficazes quando aplicados a um povo sobranceiro e milenar como o nosso! E não é com repressão ou pela força ou ainda pela intimidação que se tira o melhor de cada um – medidas aliás que têm conduzido sempre no limite a convulsões revolucionárias, como que se de um tumor maligno o povo se quisesse ver livre. Tira-se partido desta gente conhecendo e potenciando tão-somente a corda sensível que a projecta e a transcende: a sua ambição pelo impossível! Tal foi a visão estratégica de São Bernardo de Claraval, levada a cabo pela Ordem do Templo / Cristo na primeira dinastia e Ordem de Avis na segunda. Estas foram as únicas potências estratégicas visíveis que souberam como mais nenhuma até hoje, levar o povo Português às suas reais potencialidades.
Certo é ainda que o português gosta de conhecer as novidades porque se posicionam numa perspectiva de descoberta, porque é um povo aberto para o mundo: é descendente do fenício, filho da original casta Lusitana, mas também do celta, é constituído pelo árabe, pelo judeu e pelo cristão! Na sua globalização, cruzou-se com o africano, com o índio americano, com os asiáticos e com os indianos. Criou ou ajudou a criar países com idiossincrasias muito próprias e de certo modo ligadas à nossa causa que é deles também. A nossa Globalização, o Port+Graal emergiu de pequenas colónias ou feitorias para províncias ultramarinas espalhadas por todo o mundo. O que se conclui que a filosofia era tornar Portugal não numa metrópole contida no pequeno rectângulo original com colónias subjugadas de povos inferiores, mas “dilatar a Fé, o Império, e as terras viciosas”, tornando Portugal todo e uno em qualquer lugar por onde se estabelecesse o gene português.
Deste modo ele é aberto às novidades, expansivo e tolerante mas odeia ser obrigado a viver pelas regras dos outros, porque criou a sua própria Paideia triplamente transmitida pela terra onde nasce, pelos genes dos seus antepassados e pela oralidade dos poetas. O português tem tanto de Vasco da Gama, quanto de D. Henrique quanto de Velho do Restelo. E todos são úteis: o aventureiro que quer dar novos mundos ao mundo, o sonhador e estratega que concebe e planeia, e o ponderado que embora refractário e reactivo o faz por defesa da sua terra natal face aos perigos do caminho. No entanto sendo constituídos conceptualmente pelos três, tornamo-nos seres inquietos, pelo paradoxo de que somos reflexo.
O português sendo aventureiro e missionário, não pode ser materialista no seu íntimo, porque o risco de uma epopeia ou missão, implica a espiritualidade, o desapego completo, para além do limite da sua própria vida! O espírito de desapego do português é tal que nas épocas de governação estrangeirada, desconhecendo a sua ancestral missão ligada à do país onde nasceu, subestimando a sua “raça”, o leva a raiar a traição, tal se encontra motivado a ser um cidadão do mundo. Desse mal padecem as classes governativas e intelectuais infectadas pelo jacobinismo e positivismo da revolução francesa de 1800 cuja continuidade atravessou dois séculos até ao europeísmo actual com as filosofias neoliberais e niilistas, de cariz desagregador da nossa paideia que se encontra alinhada com as Leis Naturais.
Do “ser português original” excluo obviamente o indivíduo mesquinho e de visão curta de que muitos se tornaram, o que se alimenta da corrupção, porque parasitas os há em todos os quadrantes e latitudes e não respeitam nenhuma terra que pisam. Excluo o novo-rico com as suas manias e preconceitos que o manterá para sempre tão pobre e desligado interiormente como nasceu: tem vergonha da sua condição, projectando a sua inferioridade no povo de que faz parte, mas que não lhe reconhece pertença. Refiro-me sim aqui ao português de alma e coração: desde o inovador cosmopolita mas conhecedor da sua missão, ao português profundo enraizado na terra dos seus antepassados, o indivíduo estreitamente ligado à terra, ao ser autêntico, granítico, rude de mãos e caras fendidas temperado pelo sofrimento, pelas alegrias e pelos elementos, mas com um conhecimento empírico tal, que muitas vezes mancha o manto sobranceiro do académico.
O Português é um Homem livre, preparado para a incógnita, para o desconhecido que o empolga, que o agiganta e que em suma o liberta, não para a rotina, para o conhecido, para as regras dos outros que o aprisionam, o asfixiam e o condenam a uma morte lenta… A sua reacção no presente é claramente de renúncia às regras impostas, ao sentimento de saudosismo, na esperança de ver renascida das cinzas, projectada no futuro a missão vanguardista de quinhentos que foi somente sua.
O Português genuíno é o povo que primeiro se dispõe a abandonar a Caverna de Platão e as suas sombras materiais sedutoras...

A lusofonia numa época de mudança
Temos o "privilégio" de viver um tempo histórico de mudança de paradigma vaticinado por Agostinho da Silva, que em minha opinião irá conduzir a sociedade ao princípio da responsabilidade individual, no realinhamento com as Leis Naturais. Nada que tenha relevância e sustentabilidade no plano da forma, poderá existir se não assentar nos princípios complementares dos deveres e dos direitos do indivíduo de e para com a envolvente, seja ela o tecido social ou ecológico.

A situação actual da Crise Económica, que materializou a Crise de Valores e dos Princípios Morais que há muito se constatava, é prova de que a mudança está a um passo e nada será jamais como dantes. Esta mudança será contudo difícil e dolorosa, como o é qualquer "parto" e poderá levar mesmo a algumas convulsões de ordem social, se bem que a dor será tanto maior quanto mais apegados nos encontrarmos ao chamado “velho mundo” que agora finda. O Homem tem que inexoravelmente seguir a Via da Dor para encontrar a Via do Amor, única via geradora de Vida. Desta feita, o futuro tem que ser visto com esperança em especial pelos rejeitados do “velho mundo”, pois neste particular a ameaça que todos sentimos é ao mesmo tempo uma oportunidade, esta dor pela qual temos que passar é essencial à aprendizagem e ao crescimento e catártica para o próximo estádio de evolução do Homem.
Este é o passo essencial – a Via-sacra do Homem – para o cumprimento das condições necessárias à materialização da Utopia do Quinto Império de que nos falou o seu último eminente profeta lusófono – o Professor Agostinho da Silva. Este Quinto Império, que se encarregará de conduzir o mundo à Terceira Idade, foi descrito numa linguagem simbólica intemporal, que embora tendo sobrevivido ao passar de inúmeros séculos, tem que ser reinterpretado e repensado conscientemente, segundo a forma de ser e de estar do Homem do Século XXI. A Idade do Espírito Santo, como nos diz a tradição, só terá início quando for verdadeiramente sentida no coração dos Homens. Esta é a Utopia Agostiniana, esta é a nossa utopia!

Nós, os luso-descendentes, temos, mais do que outros povos implantada a Semente da Idade do Espírito Santo, passadas que estão as Idades do Pai e do Filho da filosofia de Joaquim de Fiore. Essa semente germinará no dia em que houver “solo fértil”. A nossa capacidade inata para o relacionamento de igual para igual, para a miscigenação das raças, no sentido de criar uma “nova raça” num novo mundo, a crença no Homem Superior, livre e criativo e não no Super Homem niilista, são tudo características necessárias ao despontar do novo ciclo, de uma Nova Ordem Natural, não imposta por nenhum interesse material ou particular, mas ao serviço de todos.
A acção unificadora e construtora que os Portugueses trouxeram ao mundo com os Descobrimentos, direi antes o primeiro e o mais sustentável projecto de Globalização jamais alcançado por outro povo, interrompido que foi, terá que emergir novamente. Teremos que perceber contudo que a difusão desse paradigma já não é só nosso, mas de todos aqueles que falam a nossa língua e nela se revêem culturalmente. Refiro-me quer aos indivíduos dos países de língua oficial Portuguesa, à diáspora constituída por emigrantes de todos esses países, que só por si formam uma grande nação, bem como e ainda todos aqueles que mesmo não falando o português, sejam descendentes pela via do sangue e que se posicionem na mesma forma de ser e de estar desse povo fundador. Refiro-me ao Oriente onde não só deixamos indeléveis mas profundas marcas, como também por ele fomos profundamente transformados e enriquecidos...
A rede lusófona terá que ser restaurada novamente, sem medos nem complexos colonialistas, algo de que fomos acusados injustamente pelos países que efectivamente o foram e que continuam sub-repticiamente a sê-lo, através das suas ex-colónias tornadas soberanas na aparência. Foi um excelente pretexto para lhes oferecermos o fruto apetecido. Países que, criados por nós, se deveriam ter emancipado pela acção intrínseca do seu próprio crescimento e desenvolvimento autónomo e não por intermédio de forças e ideologias estrangeiras às verdadeiras necessidades do seu povo que era à data também nosso povo.

O conceito colonialista encontra-se estreitamente ligado aos povos conquistadores de raiz continental ou terrestre e não de vocação marítima. Estes é que levaram e ainda hoje levam a cabo acções de genocídio cultural ou rácico, acções de usurpação dos recursos naturais, subjugando ou exterminando os seus legítimos donos. O conquistador não percebe que um povo ou raça particular é na sua terra mãe, o melhor produto de adaptação àquela envolvente, cujo complexo cultural que desenvolveu ao longo da sua evolução importa conhecer e estudar a bem da biodiversidade Humana. Os Portugueses dos Descobrimentos percebendo da mais valia das trocas de conhecimentos e de produtos que garantissem a sustentabilidade da sua economia, preferiram estabelecer parcerias e alianças, recorrendo à negociação, lançando os alicerces do próprio sector terciário de actividade – serviços – à escala mundial. As poucas conquistas territoriais serviam apenas para a consolidação de pontos estratégicos na linha de costa, para a manutenção do comércio como motor de sustentabilidade económica, bem como na utópica demanda do Prestes João. Se olharmos para os mapas do chamado “Império Português” no seu apogeu, onde figuravam os contornos dos oceanos marcados pelas “nossas gentes”, verifica-se que ao invés da terra, era o mar que “nos pertencia”, era o mar que nos interessava. Aquele “Mare Nostrum” indomável e salgado como as lágrimas derramadas pelos filhos e viúvas daqueles que reclamava...

“Non Nobis Domine, sed Nomini Tuo da Gloriam”.
Lema Templário – nosso lema.

A nossa queda foi consequência do rompimento da tradição que nos levou, no confronto com os países de raiz conquistadora (Castela, Inglaterra e França), à corrida da posse de terra na perspectiva do poder e glória mais céleres, ao invés de mantermos a estratégia da tradição marítima. Faltaram-nos os Infantes e os homens valorosos e interrompeu-se o desígnio! Deixámos de olhar para o alto ofuscados pelos tesouros mundanos, tornámo-nos novos-ricos, colonialistas e sofremos as consequências. É necessário curar da amnésia as novas gerações e motivar os desinteressados do futuro, fazendo-lhes sentir que o hedonismo tem os dias contados. É necessário aprender com os erros cometidos ao longo de 900 anos. Portugal já não é um jovem na sua puberdade como o são países ainda na sua infância histórica e onde vamos inconscientemente buscar padrões de vida irreconciliáveis com os nossos…

A mudança de paradigma urge que se arrepie rapidamente caminho, ou seremos tragados pelos acontecimentos tal como os “ratos de Hamelin”. É necessário levar as pessoas deste espaço de língua Portuguesa a interpretar e colocar à discussão estes e outros aspectos da nossa Tradição, repito num contexto mais alargado de lusofonia e não de portugalidade. É necessário reinventar a nossa história para melhor nos conhecermos e percebermos qual a nosso rumo no contexto actual. Temos que nos realinhar com o trajecto há muito perdido, temos que deixar de nos continuarmos a queixar de nós próprios. Não somos mais a cauda da Europa, posicionemo-nos antes como a sua Cabeça. Portugal é o porto da Europa para o mundo. A lusofonia torna-nos num parceiro Europeu com voz activa por direito e não apenas um pequeno país subdesenvolvido periférico. A Europa terá que ser um espaço a desenvolver também pela Lusofonia, sendo Portugal a porta de entrada nesse espaço, assim como o Brasil no continente Americano, Angola e Moçambique juntamente com Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e a Guiné Bissau no continente Africano, Timor, Macau e as regiões históricas da Índia no espaço Asiático.
Sabendo daquilo que somos capazes, teremos que potenciar os nossos pontos fortes como o fizeram os nossos antepassados, a fim de que os descendentes da “ínclita geração” voltem a ter uma voz activa no Mundo, que se vê a desmoronar a cada dia que passa, fruto da acção destrutiva, dos actuais “conquistadores financeiros”.

A comunidade lusófona é descendente de um povo de construtores, capaz de dar Novos Mundos ao Mundo, e não estamos hoje sós, porque temos connosco nações emancipadas e influentes que souberam superar as suas crises de crescimento, ainda com mais energia e necessidade de afirmação na senda e na linha que nos une. Temos massa crítica para alavancar movimentos empresariais que resultem em projectos válidos e sustentáveis à melhoria das condições de vida do Homem e à sua caminhada evolutiva neste mundo. Se guiarmos os projectos no plano económico através da nossa filosofia, baseada no direito e no valor da diferença, na pluralidade como diz Agostinho da Silva, teremos garantido o sucesso financeiro que só existirá realmente se for consequência e não causa. Colocar o ganho financeiro à frente da missão e do projecto de servir a Humanidade conduziu-nos à crise que presenciamos.

Temos que saber restaurar em cada um dos países da lusofonia a nossa Paideia ancestral, consubstanciada hoje na pluralidade, no realinhamento com as Leis Naturais que os nossos antepassados souberam respeitar. Precisamos de recordar a nossa razão de ser como motor civilizacional construtor, alavancar projectos culturais agregadores da lusofonia associados através de grupos económicos. Estes últimos deverão servir esta causa, no religamento do cordão umbilical, contribuindo para essa chama que não só aquece e vivifica a esperança de todos nós, como iluminará as novas rotas dos Descobrimentos que estão para acontecer nos planos da Criatividade e do Desenvolvimento e nos levará a descobrir e a dar mais uma vez novos Mundos ao Mundo.

O Quinto Império ou a era Quinquenária da Imaterialidade
Deste modo Portugal, reúne ainda todas as possibilidades de cumprir a profecia do Quinto Império: estamos a entrar numa nova era, que levará a sociedade à imaterialidade. Este aspecto já é vislumbrado por variadíssimos indícios, se podem resumir em dois paradigmas, um respeitante ao Homem (lembro aqui da 3ª vaga de Alvin Tofler...), e outro ao meio em que vive – o Ecossistema.
No primeiro vem-me à memória as sucessão dos sectores de actividade que nos acompanham desde os primórdios da actividade do homem sobre a Terra: o sector primário com a caça, pesca e agricultura que é já uma actividade de transição ao sector secundário que aparece mecanizado nos finais do século XIX com a revolução industrial. O sector secundário é uma actividade de transformação efectiva da natureza, cuja necessidade proveio inicialmente da conservação dos produtos perecíveis do sector primário e da criação de novas ferramentas e utensílios auxiliares à actividade do Homem. O sector terciário que aparece globalmente só na segunda metade do século XX, foi iniciado pelos portugueses de quinhentos, através dos seus avançados sistemas de logística, montados nas rotas comerciais e de serviços – sim porque as nossas feitorias e frotas marítimas para além de pólos comerciais, também forneciam serviços de protecção ao nível da costa aos senhores dessas regiões, tal como Macau, que protegia a China contra a investida da pirataria costeira. Era o que se poderia chamar hoje de uma relação WinD. Duarte e Infanta Leonor de Aragão-Win.
Voltando aos sectores de actividade, o terciário que se destina aos serviços, como vimos, sendo alavancado pelos dois sectores anteriores, potenciou uma mudança total e completa de paradigma: da produção alicerçada somente nos bens passou-se a uma produção de aproximação cada vez maior às necessidades e procura de mercado dos indivíduos tornados clientes. Actualmente vivemos no sector quaternário que se caracteriza pela era das tecnologias da informação e conteúdos, que cumprem as necessidades de uma sociedade global. Do futuro espera-se que isto venha a suceder na era quinquenária do “Wellfare” ou do bem-estar. Os impérios da história acompanharam todos estes sectores, e impuseram paradigmaticamente a mudança, como nós portugueses com a implementação do sector terciário.
As organizações seguiram igualmente a tendência da desmaterialização, passando para sobreviverem ao primado das marcas, das ideias, dos conteúdos e da informação. Substituiu-se a materialidade empresarial centrada no produto e nas organizações rígidas do tipo familiar ou estatal, cujos activos (corpo material) se vêem disseminados por um conjunto indefinido de novos donos, accionistas, que por sua vez não são fixos, porque são livres de comprar e vender as participações nessas empresas. A personalidade e identidade, em suma, a alma destas organizações, reside agora só e apenas na marca, cuja mobilidade é tal que pode mudar de corpo, e de donos. A sua desligação acentuada ao plano material, pode no entanto conduzi-las à sua extinção, por perda de influência e de objectivos concretos que alimentam a ideia de identidade...
A internet tem substituído a materialidade dos livros, das bibliotecas, dos suportes multimédia e de algumas empresas. Grande parte do trabalho é hoje executado em suportes imateriais, cada vez mais o trabalho do homem reside nas ideias, na criatividade e na mudança de mentalidades, mais balanceado para o pensar, para o criar e menos para o fazer, ou executar…
No segundo paradigma, o do Ecossistema, tem-se verificado e propagado aos quatro ventos que os três primeiros sectores de actividade, são extremamente lesivos ao equilíbrio dos recursos naturais, daí que a actividade económica tenha que transitar rapidamente ao plano das ideias alavancada pela alta finança, saindo do âmbito do plano físico. Desde que se articulem estratégias sustentáveis de manutenção das necessidades básicas de subsistência das sociedades, a actividade ou o negócio do Homem transitará para o mundo criativo das ideias, suportado através de meios virtuais, que interfiram o mínimo possível com os ecossistemas terrestres, que são o suporte de todas as actividades.
Deste modo, a harmonização dos dois paradigmas prevêem a salvaguarda do equilíbrio Natural e a sustentabilidade das Sociedades do Homem, que sem as obsessões actuais se tornam num cumprimento absoluto das Leis do Equilíbrio Natural – ou Leis Divinas. Devo contudo referir, que mais nefasta que a poluição física dos ecossistemas, é a poluição mental dos Homens, ou melhor a falta de Amor Incondicional, do Amor Verdadeiro e fraterno que é a única Força agregadora e criativa do Universo.

Antes de seguir o raciocínio quinto imperista e de o adaptar como o Padre António Vieira, nos soube deixar na sua História do Futuro, importa meditar sobre o seguinte texto:
“Considerem agora os Portugueses, e leiam tudo o que daqui por diante formos escrevendo com este pressuposto e importantíssima advertência: que, se alguma cousa lhes poderia retardar o cumprimento destas promessas, seria só o esquecimento ou desconhecimento do soberano Autor delas, quando por nossa desgraça fôssemos tão injuriosamente ingratos a Deus, que ou referíssemos os benefícios passados, ou esperássemos os futuros de outra mão que a sua.
Prometeu Deus de livrar os filhos de Israel do cativeiro do Egipto, como tinha jurado aos seus maiores, e de os levar e meter de posse da terra da Promissão; (…) se buscarmos no Texto Sagrado as causas deste desvio e dilação (a qual durou quarenta anos inteiros, sendo a distancia do caminho breve, e que se podia vencer em poucos dias) acharemos que foram, três. Agora nos servem as duas, depois diremos a terceira. A primeira causa foi atribuírem a liberdade do cativeiro a Moisés; (…) A segunda, e ainda mais ignorante (sobre ímpia e blasfema), foi atribuírem a mesma liberdade ao ídolo que de seu ouro tinham fundido no deserto. (…) Basta, povo descortês, ingrato e blasfemo! Que Moisés e o vosso ídolo foram os que vos livraram do cativeiro do Egipto?! (…)

Mas antes que passemos às outras utilidades, que ficarão para os capítulos seguintes, justo será que fechemos este com a terceira causa do castigo que ponderávamos, a qual refere o Texto Sagrado no cap. XIV dos Números, e pode ser de grande exemplo para outra casta de gente, que são os que a Escritura chama filhos da desconfiança.”
Padre António Vieira em História do Futuro, Cap. II vol. I

Segundo o P. António Vieira existem três aspectos que podem impedir que a profecia se cumpra: a destruição da concepção do Princípio Divino que é o desrespeito às Leis Naturais, a anulação do ideal da aristocracia natural transferindo-a a ídolos com pés de barro e a perda de fé do indivíduo em sim mesmo.
No primeiro pode haver o risco das novas gerações perderem a noção da dependência das Leis Naturais (Lex Natura), pela ignorância ou pela arrogância. O falso conhecimento pode levar ao caminho divergente da verdadeira Luz com adoração iconoclasta a falsos profetas e deuses menores da ciência, da política, da finança e dos “media”.
Na segunda, a criação e adoração de "bezerros de ouro": os bens materiais que conduzem ao hedonismo numa sociedade virada somente ao prazer e à futilidade. A procura do ter, mais e melhor do que o outro, a ostentação de sinais externos de riqueza, o sentimento de que a sociedade do Homem tem ferramentas prontas a resolver todos os problemas e o autismo com que os privilegiados encaram a sua vida e viram a cara à miséria dos excluídos, sem direitos aos frutos da prosperidade.
Na terceira, o eterno recalcamento depressivo a que o português é sujeito desde a infância, levando-o ao complexo de inferioridade pelo nascimento, a desacreditar em si próprio, a pensar que é menos capaz que todos os outros, que é atrasado e que nunca chegará à linha dos povos da frente. O sentimento desde o berço de que nasceu num país pobre e pequeno, e que é filho de um povo atrasado e medíocre. Bombardeado pelos “media”, passando pelo estabelecimento de ensino, à empresa onde trabalha e às conversas de circunstancia, não lhe é permitido que o seu espírito germine e que erga a cabeça. Para isso tem que imigrar, para viver o seu ostracismo num sítio onde não seja identificado e anatematizado por ser tão só Português!
Para que Portugal dos portugueses possa liderar, por direito próprio, num futuro próximo, o avanço da Humanidade como o fez desde o século XII ao XVI, terá que saber transmutar os agentes internos que se mantêm presos a ideologias e interesses que o aprisionam nestes três aspectos.
No primeiro, penso que terá que se mudar o paradigma, criando em todo o português um ideal superior, uma mística, uma missão, um Leitmotiv, uma paideia segundo Camões, Padre António Vieira, Fernando Pessoa, Agostinho da Silva, António Quadros bem como muitos outros! Terão que se seguir estratégias que levem a sociedade a partir dos seus elementos a uma conduta de vida que obedeça às Leis Naturais ou Divinas. Sobre as Leis Naturais ou Divinas repousa o conceito do Sagrado, de algo superior inatingível, utópico mas que serve de farol ao Homem e que lhe permite crescer e transcender as suas limitações. A obediência às Leis Naturais exige que se restaure o Sagrado em cada um de nós, projectado na sociedade esse ideal superior. Este conceito de Sagrado não tem que vestir necessariamente nenhum dogma ou seguir nenhuma igreja particular, digo e repito necessariamente, porque sendo um assunto do foro individual e íntimo de cada um, ele deverá ser vivido segundo a liberdade e a consciência de cada um. O que importa aqui e independentemente da via religiosa ou espiritual de cada um é a forma como o Sagrado nos transporta ao domínio do inefável de algo concentrador e elevador das consciências. Deste modo o Sagrado é ainda agregador a tal ponto porque promove a recriação das condições necessárias à elevação das consciências individuais através da repetição ritualizada de práticas ancestrais ancoradas pelos símbolos da tradição. O enfoque na cultura e nas tradições regionais como as festas religiosas populares tornam-se essenciais à restauração desse “plano Sagrado”, muito próximo daquilo que em tempos se conheceu como Religião Natural. A Natureza é por definição a nossa melhor professora e a analogia a melhor das ferramentas de observação dos fenómenos, que ao nível social se permite entender a partir das festas populares simbólicas.
Na segunda, a educação não para a igualdade castradora, taylorista, mas para a natural separação de indivíduos por capacidades e potencialidades, de tal forma que os que se encontram à frente se tornem nos ideais a projectar nos que estão mais a trás, os líderes naturais pelo abnegável exemplo, pelos princípios e em suma pelo valor e não pela falsa imagem que leva os indivíduos das classes inferiores a questionarem os das classes mais privilegiadas. Temos que colocar líderes naturais equilibrados pela Lei Natural e pela mais valia técnica e humana, a fim de servirem de força de tracção a toda a sociedade pelo seu trabalho operativo e pelo seu exemplo como seres humanos. A democracia tem que se ver alicerçada na meritocracia, para que continue a ter existência prática. Tem que se cultuar a transparência social, o conceito de verdade e dos princípios nos indivíduos que têm a seu cargo o “sacerdócio” da condução dos outros. Num contexto de meritocracia e de transparência, os melhores indivíduos em cada uma das suas áreas de afectação e de especialização deverão servir de “benchmarking” natural para aqueles que os vão suceder. Para além do exemplo deverá deixar-se sempre espaço à criatividade e à mudança que cada ciclo geracional é obrigado a promover a fim da sociedade poder evoluir e melhor se adaptar aos tempos. Neste ponto deverá existir o bom equilíbrio entre a necessária transmissão do conhecimento que os melhores indivíduos em cada área irão transmitir e que os ligará numa longa cadeia ao início daquelas actividades e a criatividade daqueles que os irão substituir, a fim de não haver corte do conhecimento passado nem resistência à mudança, quando ela é a única certeza neste plano.
Na terceira, perceber e mostrar que o povo Português é naturalmente igual ou mesmo superior aos outros povos em muitas áreas e se não se consegue avançar pelo caminho que os outros o querem dirigir e confinar é porque ele não nasceu para o fazer, como já referi. Como diz Teixeira de Pascoaes, quando se obriga o povo português a seguir uma determinada metodologia estrangeira aos nossos valores e incoerente com um esquema mental muito peculiar, impede-o de fazer melhor do que ninguém aquilo para o qual nasceu obrigando-o à mediocridade naquilo que os outros se tornaram exímios. O português deverá conhecer o seu caminho e segui-lo sem complexos de nenhum tipo. Ele nasceu para criar os seus próprios caminhos para lá do impossível, tornando-se no vanguardista, no descobridor, no navegador que dá novos mundos ao mundo! Devemos deixar de nos queixarmos de nós próprios, de dizermos mal de tudo sem olharmos seriamente para as coisas tentando perceber as inúmeras soluções que a nossa criatividade pode materializar. As novas gerações terão que quebrar com o espírito redutor, medíocre que criamos depois da nossa queda como motor civilizacional, chancelado pelos cerca de 400 anos de ditadura e opressão castradora em que fomos mergulhados até ao século passado. Está na altura de erguermos a cabeça e percebermos que não somos um povo decadente e fraco mas um dos povos líderes que permitiu a construção de um mundo à escala global que aboliu a escravatura e a pena de morte. Somos um povo que substituiu o conflito pela negociação e pelas relações humanas à escala mundial, algo que ainda longe dos ideais de uma verdadeira fraternidade entre os povos se aproxima como nenhum outro destes princípios.

Plano estratégico a desenvolver
Contudo penso mais uma vez que a real defesa da nossa identidade, terá que passar, nesta conjuntura em que se perfila uma amálgama de povos miscigenados, pelo pragmatismo, seguindo o caminho possível, que é para mim se torna o de sobrevivência à travessia do deserto dos valores espirituais.
Antes de mais importa reflectir um pouco sobre as mudanças sociais do final do séc. XIX início do séc. XX. Vejo na analogia da evolução que levou à imaterialidade das empresas, antigas entidades com personalidade familiar individual muito sólida, como já referi atrás, uma transição equivalente operada na sociedade Portuguesa de então. Mais, a transformação social que derrubou a monarquia – a família dona da nação, e a substituiu pela república é muito semelhante às transformações que dentro das organizações empresariais, substituíram as administrações familiares – o patrão, pelas administrações representativas da vontade dos accionistas. As nações como organizações sociais, e em especial a Portuguesa eram fortemente governadas pelo paradigma familiar tradicional. Esta era o núcleo mais importante de organização, independentemente do grau de complexidade, fosse ele apenas uma família, uma empresa, uma localidade, região, nação e mais importante ainda de uma nação global – compreende-se que a nossa estrutura cultural organizativa estava em dissonância com as vontades da nova ordem mundial!
Nos finais do séc. XIX começou-se a desenhar a mudança de paradigma que iria alterar por completo todo este núcleo organizativo, passando o poder a estar disseminado (aparentemente em potência) por todos os indivíduos sem desigualdade de privilégios, ao contrário do que o sistema das classes sociais tinha definido até aqui. Era o início do primado do indivíduo, levando à emancipação de uma nova classe alicerçada na alta finança. Não fosse a eterna capacidade de alguns se diferenciarem dos demais, agora pela capacidade de conquista financeira, acumulando riqueza e poder, desarticulados dos valores morais e éticos ancestrais na nobreza europeia, não teríamos qualquer diferença entre os regimes de cariz capitalista e marxista onde a acumulação de riqueza neste último, não poderia acontecer por doutrina (a não ser à classe dirigente, a verdadeira gestora dos bens do povo). Estavam estabelecidos os novos planos para a nova ordem mundial e é nesta conjuntura, contendo as duas ideologias em cada um dos pratos da mesma balança social socialista que se dá a passagem do século XIX para o XX, sistematizando-se ao longo deste até ao séc. XXI e na qual Portugal terá que encontrar a melhor estratégia, junto dos seus pares da Lusofonia, para retomar a sua missão, caso contrário a sua sobrevivência estará comprometida a médio prazo.
Porém, a sua missão actual, está longe de ser a do líder do espaço da Lusofonia, porque nela não poderá ser mais o motor que foi, mas sim o gerador da mística e da sabedoria histórica do sentido de missão que a sua vetusta idade lhe permite! Se reflectirmos um pouco, verificamos que já não somos pátria mas mátria, pois de nação activa com projecto autónomo passámos a nação passiva, na estrita obediência de missões estrangeiras! Veja-se que desde a restauração de 1640 por D. João IV, passámos a ter como padroeiro visível não o S. Miguel Arcanjo que foi instituído pelo fundador D. Afonso Henriques, mas a Virgem Santa Maria, coroada pelo rei restaurador! No Mosteiro dos Jerónimos no célebre pórtico Sul, o personagem que se encontra em cima do pilar a meio da porta dupla (Infante D. Henrique?...), tem a espada a apontar para baixo, em sinal de desarme ou rendição. Se olharmos bem, verifica-se que inicialmente ela apontava para cima em sinal de guarda e de acção… O Escudo acima da entrada norte da Igreja do Mosteiro dos Jerónimos, encontra-se partido a meio. Diz-se que ele partiu no exacto momento em que Alcácer Quibir tombava D. Sebastião… por outro lado o partir de um escudo ou da lâmina da espada – peça militar defensiva, com carácter não só de protecção física como mágica (dado que possuía símbolos pessoais ou nacionais) – simbolizava tal como a queda por terra da bandeira nacional, a derrota e a submissão.
Com estes passos simbólicos se dá conta da orfandade paterna e do condicionamento do nosso povo, que ainda sofre com o seu estado de menoridade, tal como a viúva e os seus filhos sofrem, quando perdem o chefe da casa e o seu ganha-pão! Com a mudança deste paradigma, se verifica a morte do Mestre Cistercense da Ordem do Templo, de Cristo e de Avis: perdemos o Pai pátrio, o Guia e o Líder da missão que por isso fica interrompida! Ou terá sido sublimada…
Voltando ao plano estratégico a desenvolver, no que diz respeito à imagem e aos valores culturais que lhe estão associados, Portugal terá que se adaptar, defendendo-se nesta travessia do deserto dos valores espirituais. Esta será a primeira fase, que pode durar ainda algum tempo, antes de poder retomar junto do seu património luso mundial, da missão interrompida. O retomar dessa missão será oferecido à Lusofonia se esta com Portugal cumprir os desígnios que Vieira tão bem aponta e o seu reinício será seguido de uma forte necessidade mundial... a queda esperada do sistema capitalista vigente após a queda do socialismo e do modo de ser e de estar estimulado por ambos.
A estratégia a desenvolver aqui, terá que cobrir os dois planos da consciência, refiro-me como já disse ao “plano do Sagrado” que importa restaurar. Este influencia decisivamente o plano concreto e tangível do dia-a-dia. Um tem reflexo no outro, já que o plano do sagrado induz motivações e projecta ideias muito profundas que se concretizam no plano visível material. Em jeito de analogia, pode-se intuir que no plano da consciência, o Sagrado comporta-se como que um sol interior, onde um pensamento é como que um objecto, uma identidade no plano material e “um estado de alma” é como que um local, um sítio, uma paisagem no plano material.
Tendo em conta estas considerações, e o que já foi referido atrás, penso que a solução no primeiro plano passa pelo retorno da sociedade ao nível do Sagrado, através das motivações individuais e interiores de cada um, mas consubstanciadas nas tradições das festas populares que deverão ser restauradas em cada região do nosso país.
Importa dar uma pequena explicação histórica sobre a organização ritual e hierarquizada das ordens que construíram o nosso país e o converteram num projecto plataforma para o mundo através dos Descobrimentos. Assim e tal como no tempo da fundação de Portugal, se pode tirar a ilação de que existiriam pelo menos três tipos de ordens organizacionais e hierarquizadas na condução dos destinos da nação, esse mesmo modelo poderia ser restaurado da base. Os Templários, a Ordem de Cristo e a Ordem de Avis, para referir as mais importantes porque geraram dinastias, eram por assim dizer organizações intermédias ou executivas, situadas entre a Ordem Interna (desconhecida) que estabelecia a estratégia e a mais externa, que me permitam que considere, à falta de melhor designação, por "ordem nacional", que incluía todo o povo como uma egrégora unido por uma missão: quanto mais não fosse a união contra o poder de Castela... Esta ordem externa tinha para além de uma multiplicidade de tradições mais ou menos ritualizadas ou cerimoniais, uma tradição que foi estabelecida, provavelmente pelas hierarquias superiores e que foi chancelada mais tarde pelo Rei D. Dinis. Este rito externo ou tradição popular, construído sobre um cerimonial catártico era baseado numa história evocativa de valores e de princípios filosóficos. A sua função era de elemento agregador de todo um povo à volta de um desígnio, cujo objectivo seria como foi a elevação das consciências individuais no plano acima do físico ou tangível conhecido por plano espiritual do domínio do Sagrado. Eram as festas do Senhor Santo Cristo e do Espírito Santo, cujas implicações advinham do pensamento joaquinista das Três Idades do Mundo. Este é um exemplo funcional que deu provas como já vimos na expansão de Portugal nos Descobrimentos.

Voltando à actualidade, verifica-se que o problema principal da crise de valores deste tempo, advém da descida da grande maioria da população – em especial daquela que tem a responsabilidade da condução dos destinos dos outros – aos planos inferiores da existência, o lado Humano cedeu terreno ao lado animal mais abjecto. Matámos o Sagrado, potenciamos os instintos, as paixões e os vícios que são um abuso desses instintos, e descemos ao nível animal através do liberalismo selvagem que sucedeu ao exagero da presunção dos direitos de indivíduos não elevados interiormente e por isso incapazes de serem de facto líderes, se olharmos para o princípio de dever e de auto-sacrifício que a liderança obriga.
É sabido que o poder muda o indivíduo de tal forma que se este não tiver uma forte constituição autónoma ao nível dos valores e dos princípios, muito acima dos seus interesses pessoais, das suas paixões e vícios por mais indeléveis que sejam (quando esse poder ainda não é efectivo), quando ele tiver que exercer esse poder, ele será totalmente controlado não por um indivíduo consciente e sóbrio, mas por estes instintos que distorcerão por completo a equidade e a justiça a favor dessas mesmas paixões e desses mesmos vícios que irá satisfazer a todo o custo. Desta forma a força destruidora será da ordem de grandeza dos números que estiverem nas suas mãos. Para indivíduos de baixa formação moral e de valores, o liberalismo, ou ainda a versão mais ortodoxa do neo-liberalismo foi o argumento há muito esperado para lhes legitimar todos os actos. Para muitos deles ser criminoso é tão só ser-se apanhado! O que equivale nessa visão redutora e relativista à definição de criminoso como ser perdedor, manifestamente inferior, logo justamente condenado ao desaparecimento. É darwinismo puro, só os melhores é que sobrevivem e o mesmo se passa com as organizações empresariais que dirigem!
Curioso é verificar que por muito que o Homem se ache evoluído e emancipado continua no fundo irremediavelmente tão preso como sempre às amarras das Leis Naturais…
Neste paradigma é certo que não há solução, que não seja o conflito nesse plano da existência. Iremos assistir ao agudizar dos problemas que se sucederão do seguinte modo e à medida que se gorarem todos os paliativos: da referida queda dos valores e do Sagrado passaremos à crise económico-financeira, que provocará o desencadear de uma crise social, que levará a uma crise política e cuja incapacidade para a resolver, levará por último a problemas de segurança da ordem pública, desencadeando uma crise militar. Nessa altura teremos a violência e a guerra como sempre houve nos finais dos ciclos civilizacionais (vide as crónicas da decadência do Império Romano, cujas semelhanças no tecido social actual são por demais evidentes às que se verificaram nesse tempo).
Deste modo penso que a restauração do Sagrado em cada um de nós com a aplicação prática de harmonização com as Leis Naturais ou Divinas será a única saída descrita por Vieira numa linguagem ecuménica própria de há 400 anos, mas de renovada actualidade. A classe política dirigente tem a responsabilidade de ter percepção desta realidade e de criar Hugo de Poyensantecipadamente os argumentos necessários para articular com o povo que governa o conceito do Sagrado numa época em que ele foi completamente anulado nas nossas sociedades. Deverão ser criados mecanismos alavancadores das tradições populares como as indústrias do turismo (seja ele rural ou ecológico ou ainda de saúde e bem estar), dos conteúdos de audiovisuais ou multimédia e ainda o financiamento de associações culturais regionais que potenciem o trabalho de inúmeras pessoas de “boa vontade”, muitas delas pensionistas, que ao serviço das suas comunidades tudo fazem para reviver as tradições culturais onde o Sagrado ainda se encontra protegido. O governo poderá e deverá ainda potenciar o trabalho destas associações com as indústrias de turismo e multimédia a fim de lhes conceder a sustentabilidade sem necessidade da dependência do subsídio estatal.
Deverão ser postos em funcionamento planos de acção, ao nível dos conteúdos audiovisuais e das escolas que permitam a elevação da consciência das populações, em especial das novas gerações, através da restauração dos princípios tão benéficos como a fraternidade e a solidariedade, sentimentos fortíssimos que por exemplo podem ainda ser sentidos de forma muito intensa nos Açores, onde nas festas do Espírito Santo, se verifica uma coesão impressionante da população à volta de uma tradição de uma enorme profundidade filosófica e emocional. O sentimento de corpo, de união e partilha fraternal, são bem patentes, tocando o mais insensível dos indivíduos.
Esta forma de tomada de consciência permite a protecção de um povo contra perigo dos novos “arautos dos valores” e "das reservas morais" que se arrogam detentores da verdade e que numa época de dissolução dos princípios e de crise estrutural corremos o risco de ver culminar num regime autocrático. Aliás foram momentos como este que serviram de esteira aos piores ditadores do passado.
Encontramo-nos em final de um ciclo civilizacional e do ponto de vista da preservação da “espécie Humana” temos como sempre duas saídas, a da elevação das consciências num alinhamento superior ao Sagrado, que significa a aceitação do erro e a vontade expressa de mudança – esta é a Via construtiva do Amor; e a Via disruptiva da Dor que se caracteriza pelo extremar de posições à medida que se vão dando inúmeras rupturas ao nível do tecido social por ineficácia dos variados paliativos que se vão introduzindo. No final só funcionarão os métodos correctivos que como sempre só terão lugar debaixo de um “punho de ferro” ” ou do bisturi do cirurgião. Cabe-nos a nós escolher o melhor caminho a bem da sobrevivência da Humanidade neste plano.
No plano concreto da forma, até se cumprirem os desígnios que as Leis Naturais irão ditar, e seguindo as alterações de paradigma social, teremos que saber desenhar e encetar estratégias que cubram os vários domínios de actividade e de desenvolvimento a fim de suportar a vida do homem com o mínimo do dignidade e de condições que lhe permitam a sua evolução, independentemente do nível moral e intelectual em que este se encontre.
A meu ver Portugal terá que rapidamente se tornar uma marca registada pelo seu escudo e pela sua bandeira com as suas cores. A sua personalidade agora em estado volátil terá que passar a conteúdo ou identidade caracterizada pela portugalidade (cultura, língua, história, gastronomia e vitivinicultura com zonas demarcadas, artesanato, monumentos, paisagem e mar). Com isto terá que se tornar num alfobre de produtos e serviços que a possa garantir como identidade própria numa sociedade actual caracterizada pelo mercado livre global. Terá que para ser conhecido, e por isso garantir a sua sobrevivência, saber-se vender nesse mercado, porque agora e no curto prazo vender é existir – “vendo logo existo”... E para vender tem que ser novidade. Terá que encetar actividades estratégicas que o dirijam nessa direcção, como por exemplo a utilização da CPLP como bolsa das marcas-nação da lusofonia. Se os corpos “estados” estão presos aos interesses e contingências dos acordos dos espaços económicos em que se encontram, o mesmo não se pode passar com as marcas-personalidade, que podem e devem resguardar a sua essência, levando-a até com mais facilidade aos quatro cantos do mundo, seguindo as mesmas Leis de Mercado. O mundo tem que voltar a conhecer Portugal, não como realidade menor, mas como identidade actual e passível de ser seguido.
Como actividades estratégicas vejo as Tecnologias de Informação, como actividade a investir porque irão alavancar tudo o resto que se irá passar no dealbar do século XXI. A era das telecomunicações como meio de ligação entre pessoas e povos afastados geograficamente é um dado adquirido cujo boom pertence ao século passado. Trabalhou-se no final do século XX numa evolução das redes de telecomunicações, que funcionando sob protocolos de transmissão IP permitiu uma convergência dos meios antes rigidamente associados aos serviços de voz e dados, num único meio. Esta evolução teve como consequência a hegemonia e normalização das redes, permitindo-lhes suportar uma infinidade de serviços em contínua evolução substancialmente em capacidade e rapidez. A arte da técnica terá que acompanhar as necessidades que se forem criando, arranjando soluções que as tornem possíveis. Por esse motivo a área das telecomunicações, não mais liderará estrategicamente o futuro. Ela normalizou-se e é hoje uma auto-estrada já pronta a ser percorrida pelos multiserviços. Daí que as tecnologias da informação estão a ser o passo actual para a interligação de todos os serviços de apoio das sociedades: negócios, conhecimento, cultura, relações pessoais e serviços de variada ordem. As tecnologias da informação colocam à disposição dos indivíduos veículos que obedecendo às “regras de transito” das auto-estradas das telecomunicações podem usar os muitos serviços de apoio à circulação, com o fim de beneficiar de tudo o que é e será aí possível de circular no futuro. Portugal como posição estratégica única e fazendo uso dos seus melhores recursos, pode e deve dar cartas porque é paradigmaticamente um novo mundo a explorar e a dar!
Nas Biotecnologias e novas áreas da medicina com alguns portugueses já na linha da frente ao nível mundial que não é de admirar, mesmo com os parcos recursos de um país geograficamente pequeno em comparação com os EUA ou a Inglaterra ou a Alemanha, mas porque possui uma raça extremamente grande.
Os serviços de diplomacia mundial, são para nós inatos, dado que fomos o primeiro povo globalizador, cuja manutenção dos territórios se devia não só à prestação de serviços aos líderes locais, através da bravura e estratégia, ou às actividades comerciais e de logística, mas em especial da diplomacia, que nos tinha que ser natural, para minorar os eventuais conflitos de interesse, porque não havia nem modelos nem os estudos em sociologia e psicologia comportamental que hoje enchem as bibliotecas. Vemos a força natural que accionamos como povo e que se amplificou pelos grupos de interesses e lobbies internacionais, que culminaram na autodeterminação do povo Maubere de Timor Lorosae. Mais, para além dessa “empresa” para a qual não tínhamos qualquer poder económico ou militar em função da nossa diminuta condição geográfica em relação à Indonésia – um dos tigres asiáticos, Timor decidiu escolher a língua portuguesa como sua, contra todas as expectativas. O povo português mais uma vez se agigantou e foi determinante a sua acção pela sua força de coesão.
A língua como última fronteira, num mundo global deverá ser protegida. Longe de ser una deverá ser plural, porque historicamente o português é e terá que ser um cidadão do mundo. Embora tenha que concordar com a unificação da língua Portuguesa no plano internacional, no sentido de lhe conferir a força compatível com o número de indivíduos que dela fazem uso actualmente, vejo nesse acordo de unificação um perigo, que mais uma vez facilitando no curto prazo, poderá trazer consequências nefastas no futuro. Qualquer unificação contraria o princípio da biodiversidade, que por analogia significa a capacidade de adaptação e que sendo sinónimo de riqueza cultural, se torna garantia única de sobrevivência do indivíduo. A língua portuguesa, cujo léxico, vocábulos e regras particulares vejo como um alfobre etimológico e cultural inestimável de todos os povos que por herança dela fazem uso no seu dia-a-dia. São os sons, as articulações com corruptelas ou evoluções propositadas, bem como os vários sentidos e interpretações próprias de cada região, povoação ou mesmo família que a tornam rica e lhe dão vida.
Deste modo temo que possa ser mais fácil a sua descaracterização se ela passar a ser escrita e futuramente ensinado às novas gerações por uma só Regra. As perguntas que se levantam são: quem serão os “Guardiões dessa Regra”? Que critérios passarão pela modificação futura dessa regra? Como irão adequar uma Regra comum nas várias regiões de língua portuguesa – nas quatro paradas do mundo – que por um lado mantenham os “arcanos etimológicos” indispensáveis à manutenção da cultura que lhe deu origem e por outro adaptar essa mesma Regra às necessidades de um mundo em constante mutação? Estas são as questões que importam reflectir, muito mais importantes que as lutas territoriais das editoras por mais legítimas que sejam. Para mim, uma solução passaria pelo desdobramento do português numa versão simplificada de trabalho (mais fácil de ser aprendida por todos os estrangeiros a ela mesma), comum a todos os países de língua portuguesa e que poderia ser o Português Unificado ou Internacional, e ao mesmo tempo manter em cada país da lusofonia a sua forma própria de escrever ligado às idiossincrasias de cada um e que seria a versão literária ou intelectual do português.
Deve ser dada a cada povo que faz uso do português como língua materna, a liberdade de o escrever e de o falar modulando-o à sua cultura, à sua forma de pensar e às suas necessidades locais. A unificação monocromática total deveria ser contrariada, porque a protecção não é feita num qualquer organismo por mais competente que seja na CPLP mas pelo mais humilde daqueles que a usam desde o berço e que junto com os seus semelhantes, a amplificam e lhe dão a voz de todo um povo. Vem-me à ideia o exemplo do povo de Moçambique que tendo aderido à Commonwealth se tornou num dos melhores defensores da língua portuguesa do que qualquer organismo centralizado para esse efeito no interior da CPLP, em especial numa conjuntura geográfica do “Corno de África” adversa onde o Inglês impera como língua oficial de vários países vizinhos. Como ele lembro-me igualmente de Timor Lorosae. Apoio a criação do Português Unificado escrito para fins pragmáticos e instrumentais ao nível da diplomacia e dos negócios, que possa ser mais facilmente aprendido por nacionais de outros países, mas ao mesmo tempo permitir a escrita de outras versões particulares e regionais do português, algo que aliás irá continuar a existir, independentemente de todas as regras, em especial fora das áreas urbanas.
No domínio dos conteúdos, realço o aspecto da educação e formação – sendo a primeira de base e a segunda contínua ao longo da vida do indivíduo. Os conteúdos que nos chegam pelos variadíssimos meios de telecomunicações e sistemas de informação, serão formalmente num futuro próximo a educação e a formação per si. Caberá às instituições de ensino produzir esses conteúdos e reconhecer as competências dos indivíduos, que os posicionarão no lugar correspondente da pirâmide social. Longe estamos do tempo em que as Universidades eram instituições fechadas, de clausura (i.e. claustro – cloister – close) desde os Templos Egípcios, as Escolas dos Gregos, os mosteiros medievais, onde um reduzido número de eleitos eram iniciados do ponto de vista técnico e comportamental, sendo graduados consoante as suas capacidades para se tornarem condutores das sociedades de então. A democratização e a massificação do ensino, vocacionado para as funções operativas, não acabou é certo, tal como o paradigma ancestral do ensino da excelência, que advém da tradição. O nome da Instituição associada ao preço da propina e ao processo cirúrgico de admissão, mais baseado na entrevista comportamental do que em exames técnicos, tem e fará toda a diferença. A quem é admitido, espera-se uma entrega total num rigor selectivo que irá potenciar ao máximo as suas qualidade técnicas, criativas e comportamentais intrínsecas e extrínsecas, dentro de um método em tudo semelhante com o praticado nos mosteiros medievais, nas Escolas dos Gregos e dos Templos Egípcios, para dar somente alguns exemplos históricos.
Para os que não têm lugar nestas instituições, terão o ensino das “artes de ofício” que actualizadas aos nossos tempos, se referem ao ensino técnico das áreas do saber prático, a fim de se tornarem profissionalmente bons executores ou executivos, das tendências estratégicas emanadas pelos primeiros.
Num terceiro nível, ficarão essencialmente aqueles que não pertencerão a nenhum dos níveis anteriores, e cuja formação será mais curta e terá que ser extremamente especializada e operacional.
Portugal terá que criar ao nível da CPLP, excelência neste capítulo. É importante a criação de instituições de ensino em língua portuguesa de altíssima qualidade, instituições que possam formar as futuras elites da lusofonia, à escala do que existiu até 1535, tal como se referiu atrás. Elites no sentido de terem a capacidade de pensar estrategicamente a “longo prazo”, ao contrário do que se observa hoje, onde se vêem apesar de tudo muitos bons técnicos, mas com um altíssimo índice de miopia reflectiva. A falta de sentido crítico, mesmo nas melhores práticas e técnicas que nos entram pelas instituições de ensino ou espaço empresarial, leva-os a seguir caminhos que embora se possam apresentar sedutoras no curto prazo, servirão inexoravelmente a médio longo prazo os interesses de quem os desenhou e divulgou mais acima, na grande maioria dos casos em clara oposição daqueles que cegamente os implementam. Deverá ser feita quantitativamente e qualitativamente uma clara separação desde a infância entre as competências de natureza estratégica da executiva, de modo que o português possa ter um espaço estratégico e criativo. Temos a obrigação já de subir do patamar executivo em que nos encontramos para o estratégico e criativo, porque temos capacidades e antiguidade como povo para estabelecer novos caminhos...
A formação das massas – executivos e operacionais – terá que seguir, neste paradigma existencial, o método de mercado: criação de uma necessidade, apresentação de uma solução e prestação do serviço. Para as escolas funcionarem, desde o 1º ciclo até à universidade, terão que saber criar a sua necessidade junto dos alunos – a necessidade adaptada aos tempos, longe que estamos dos tempos da revolução industrial – terão que saber implementar soluções técnicas e comportamentais estrategicamente inovadoras que estimulem os interessados. Por último, essas soluções terão que se dirigir às necessidades dos próprios alunos, prestando-lhes um serviço com alto nível de qualidade prática. Mesmo aqui será de todo o interesse que a base educativa parta da razão de ser e de estar da portugalidade, até porque é das únicas que melhor se adapta a todas as outras, mantendo o português como indivíduo em vantagem no mercado global. Deste modo só com elites formadas na portugalidade se pode ter na base práticas e metodologias consentâneas. Lembro-me ainda que as forças armadas, poderão ter ainda uma palavra a dizer na formação das novas gerações, abolida que foi o serviço militar obrigatório. Refiro-me por exemplo ao Colégio Militar e à Escola de Fuzileiros Navais, que poderão levar a cabo metodologias mais ou menos intensivas com programas destinados a vários níveis etários que ensinem e reforcem os princípios morais, éticos e cultuem a liderança, o princípio do reconhecimento do valor e da responsabilidade individual, dentro dos parâmetros da portugalidade e da missão da nossa história.
Como conteúdo de diversão (que não deixa de ser outra veículo potencialmente educativo), vejo o Futebol a par com outras actividades desportivas ao nível da selecção ou dos clubes, uma forma de não só aumentar a força de coesão nacional, que é a identificação com um corpo de que fazemos parte, num legado oitocentista, mas de assegurar a ideia, o sentir, o vibrar, o lutar desportivamente e o viver Portugal. É uma actividade que emociona e toca de modo especial todo um povo, por isso é hoje mais do que nunca uma potente arma de defesa da nação Portuguesa.
Vejo a aposta na indústria do turismo, a possibilidade de salvaguardar os locais patrimoniais de referência, da nossa história, bem como os usos e costumes. O turismo de habitação pode alavancar o redescobrimento das aldeias históricas e das vilas acasteladas, da agricultura biológica (com as práticas de subsistência ancestrais) e esta da nossa restauração típica e tradicional, bem como dos produtos regionais demarcados com embalagens biodegradáveis. A indústria pesada já não faz sentido porque é onerosa e extremamente poluente, em especial como vimos, numa época paradigmática das tecnologias de informação, que tende a evoluir para o “Wellfare”, mas a agricultura biológica, apesar de ser do primeiro sector, fará sempre parte do futuro (quanto mais não seja pela necessidade básica) caso seja sustentável e não lesiva ao ecossistema, tal como eram os métodos tradicionais utilizados pelos nossos antepassados. Penso deste modo que o caminho de defesa da nossa identidade poderá ser perfeitamente consubstanciado com os paradigmas da sucessão dos sectores de actividade que vimos atrás em harmonia com o ecossistema, em que Portugal ideia de nação se transmuta conceptualmente para Portugal – Marca Registada , porque o queremos no domínio dos vivo e não do estudo dos paleontólogos. Os dinossauros foram seres fantásticos, mas como não souberam acompanhar a evolução do meio natural, desapareceram do mundo dos vivos, destino que espero não ver repetir no “organismo” Portugal.

Conclusão
O povo Português para sobreviver como identidade própria, tem que conhecer exactamente a sua história e perceber sem reactividades nem vinganças, de que a sua raça, a "milenar raça portuguesa" foi condenada desde 1535 à lenta extinção, pela ignorância, castração e amnésia. Paradoxalmente, todos esses movimentos têm, ao contrário do que se possa pensar, tido início dentro do próprio país, desde 1139 pelos descendentes daqueles que não acreditam num Portugal livre e independente. A crise que levou à 1ª união ibérica de 1580 a 1640 e ao império dos Habsburgo, não foi provocada por nenhuma invasão espanhola, nem devido ao facto muitas vezes adiantado pelos nossos historiadores submetidos às idiossincrasias políticas, de que não havia pretendentes ao trono vago, após a morte de D. Sebastião, rei que afinal morre encarcerado nos Limoges em França, cujos ecos ficam gravados no Sebastianismo do colectivo nacional! A decisão foi consentida pelos iberistas da época, que oportunamente se aproveitaram da crise política, emergindo o país numa crise financeira a fim de justificarem ao povo a união ibérica com Espanha. Desta feita preferiam o rei Filipe II de Espanha (futuro Filipe I de Portugal) a D. António I, neto de D. Manuel I ou a D. Catarina da Casa de Bragança, cujo neto D. João II futuro el Rei D. João IV viria curiosamente a restaurar a independência. Mais, todos os inícios dinásticos das Reais Casas portuguesas se deram através de filhos ilegítimos: na Casa de Borgonha, suspeitando-se que D. Afonso Henriques possa ter sido filho de D. Egas Moniz perfilhado pelo Conde D. Henrique por incapacidade física do filho natural, a Casa de Avis aparece com D. João I, filho ilegítimo de D. Pedro I e de Teresa Lourenço (filha do mercador lisboeta Lourenço Martins), e por sua vez a Casa de Bragança com o 1º Duque Afonso, filho ilegítimo de D. João I e de Inês Pereira. Desta feita qualquer argumentação sobre a legitimidade das sucessões, cai por terra, num país que desde o início 1139 até 1910 teve uma monarquia muito própria, cuja sucessão era baseada não só com base na hereditariedade mas no princípio da aclamação popular e das cortes.
Assim, a destruição da nossa paideia por dentro, por uma classe de portugueses “sem berço” ou por descendentes de ideologistas da ibéria, foi consumada do exterior através da Espanha que trouxe com ela a Igreja e a inquisição, pela França de Napoleão que trouxe o racionalismo redutor da época das Luzes, pela Inglaterra que desde o nosso empurrão ao seu início expansionista e colonialista (oferecido pela “ajuda” em Aljubarrota consumado pelo casamento do D. João I com Filipa de Lencastre em 1387), continuou pelo nefasto Tratado de Methuen (acordo comercial estabelecido entre Portugal e Inglaterra em 1703 que se traduziu numa relação desigual compensada pelo ouro do Brasil), passando ao nível das ideias pelo liberalismo constitucional, implantado sem a devida adaptação aos nossos usos e costumes e que por último se tentou aproveitar do estatuto de “Oldest Ally” após 1815 para tornar Portugal uma colónia de facto, aproveitando-se da circunstância da ingovernabilidade do país no período que se seguiu à derrota dos franceses. Por último a consanguinidade e a miscigenação estratégica das casas reais europeias vieram ainda a toldar ainda mais a nossa missão, enfraquecendo e condenando posteriormente os Braganças (Casa Real periférica e com perigo de afirmação contrária aos interesses mundiais que levaram aos dois grandes conflitos 1ª e 2ª Grande Guerra), as forças ocultas e desestabilizadoras por detrás da 1ª república – movimento que não reflectia os desejos do povo português na sua maioria alheio a tudo isso, os poderes mundiais materializados pelos EUA e URSS na instabilidade forçada que levou à independência antes do tempo das nossas colónias e finalmente a CEE/CE/EU numa sucessão ideológica subreptícia, culminando no perigo que mais uma vez se avizinha da dissolução total da identidade e independência de um povo milenar. Mais uma vez a sombra da perda de soberania nacional é consentida pela classe governativa seguidora do iberismo transferido agora por conveniência ao europeísmo.
Atrevo-me a pensar em suma que as forças destruturantes que se acercaram do nosso país desde 1535, se deveram ao facto da missão portuguesa se encontrar muito à frente da capacidade e mentalidade do mundo nessa época e adverso ao materialismo capitalista que se desenvolve alguns séculos depois. Era necessário travar os Portugueses, e a sua ideia do mundo unido, era necessário que depois de D. Manuel I (que apercebendo-se do fim, se apressa a registar para épocas mais propícias a missão portuguesa nos sólidos livros de pedra do manuelino), a missão nunca mais fosse restaurada, era necessário matá-la de vez, impedindo que D. Sebastião regressasse a casa… Era necessário em suma que o projecto Templário planeado pelo visionário São Bernardo de Claraval – o Porto do Graal – soçobrasse de vez!
Deste modo é de todo necessário que as condições mundiais se deteriorem de tal modo que Portugal emerja da sua hibernação e volte a ser o centro do mundo material, porque se encontra no centro do “mapa mundi” (posição estratégica) e em esperança espiritual porque é o único país verdadeiramente universalista reflectido no seu povo amistoso e nas armas da sua bandeira: a propagação do Quinto Império sobre o Mundo!

Nota: Joaquim de Fiore (c. 1132 — 1202), também conhecido por Gioacchino da Fiore, Joaquim de Fiori, Joaquim, abade de Fiore ou Joaquim de Flora, foi um abade cisterciense e filósofo místico, defensor do milenarismo e do advento da idade do Espírito Santo que se seguia às idades do Pai com o judaísmo, e do Filho com o cristianismo. Esta filosofia teve muita força em Portugal sendo seguida pelas suas classes dirigentes, no qual se chegou mesmo a posicionar Lisboa como sucessora de Jerusalém e Roma como sede da nova Igreja do Espírito Santo.

Fig.1 – Quadro “O Quinto Império” do Mestre Lima de Freitas.

Fig.2 – D. Duarte e a infanta Leonor de Aragão de mão dada para a eternidade.
Panteão do Mosteiro da Batalha.

Fig.3 – Hugo de Poyens, o ilustre cavaleiro Templário ajoelha-se diante de São Bernardo de Claraval.
   


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