Fundação Maitreya
 
Ensinamentos do Vedānta - Siddhānta Pañjara

de Vināyaka

em 30 Set 2023

  O Siddhāntapañjara aqui editado pela primeira vez, está baseado em dois manuscritos incompletos e em dois manuscritos completos. São ressaltadas e claramente evidenciadas comparações e os contrastes entre eles. O capítulo oito é na verdade uma síntese de todos os sistemas. Até mesmo no sistema Cārvāka, Ātman é aceite como não sendo nada mais que corpo físico. Uma vez que Ātman inclui tudo, este conceito não deve ser deixado fora das anteriores considerações. Assim podemos ver o que o Sarvamatasamanvaya já propunha, antes mesmo de Sri Rāmakrishna o ter provado pela sua experiência pessoal, no nosso século. O trabalho está dividido em oito capítulos e está sob a forma de perguntas e respostas entre o mestre e o discípulo. É uma exposição bastante lúcida do Advaita Vedānta. Os quatro primeiros Capítulos dizem respeito aos conceitos de samsāra e samsārin. O quinto é uma discussão sobre māyā. O sétimo está sob a forma de sarvamatasamgraha, e dá os vários princípios dos sistemas de Filosofia. Divide as filosofias (darśanas) em Advaidika e Vaidika. Os sistemas de Cārvāka, de Buddha e Jaina são avaidikas, enquanto os de Sāmkya, Yoga, Mīmāmsā, Nyāya, Vaiśesika e Vedānta são Vaidika. Segue-se um relato sucinto de tudo isto, acentuando mais e mais uma vez a suprema importância do Vedānta. São ressaltadas e claramente evidenciadas comparações e os contrastes entre eles. O capítulo oito é na verdade uma síntese de todos os sistemas. Até mesmo no sistema Cārvāka, Ātman é aceite como não sendo nada mais que corpo físico. Uma vez que Ātman inclui tudo, este conceito não deve ser deixado fora das anteriores considerações.



Introdução
(1ª Parte)
1. Manuscrito Incompleto em papel, escrito por Pandit V. Venkatarama Sarma
2.Manuscrito em papel na Biblioteca do Government Oriental Mss. Madras, No. R. 2941
3. Manuscrito em folha de palmeira disponível na Biblioteca da Universidade de Kerala, Mss. (no. 665 no Catálogo Descritivo da Biblioteca do Palácio)
4. Manuscrito Incompleto Ms. No. 656A, do mesmo Catálogo.

Assim podemos ver o que o Sarvamatasamanvaya já propunha, antes mesmo de Sri Rāmakrishna o ter provado pela sua experiência pessoal, no nosso século.
O autor de Vināyaka era aluno do Yogī Rāghavānanda, provavelmente com fama idêntica ao Rāghavānanda, comentador do Bhāgavata, que floresceu sob o patrocínio do Rei Rāghava de Kolathunad em Kerala no começo do século XIV. O autor, Vināyaka, refere o seu patrono como o Rei Keralavarma Matikendra.
Ao traduzir para o Inglês foi tomada em consideração a necessidade dos estudantes modernos de Filosofia Indiana. O Dr. Usha Colas ajudou-nos na tradução dos textos para o Inglês e merece os nossos sinceros agradecimentos. Esperamos que a presente edição seja útil para os estudiosos e estudantes de Filosofia Indiana.

Conjunto de Conclusões Filosóficas

Capítulo 1

1. Possa o Yogī Rāghavānanda, a encarnação do Espírito Universal, levar a cabo danças divinas na arena da minha mente.

2. Sem um começo a partir de Prakṛtī evolutiva, livre da dualidade, residindo no coração das pessoas como sendo o Eu;

3. Permanecendo sempre como a base de todas as coisas, e na forma de todas as coisas  nesse Śambhu eu sempre me refugio.

4. Para a destruição do laço da morte meditamos n’ELE (Senhor Kṛṣna), que é negro como as flores de Kalāya, cuja forma é existência, consciência e bem-aventurança, e que está interessado em tocar flauta.

5. Veneramos essa afável Deusa que brilha sempre através de cinco funções, nomeadamente criação, protecção, destruição, segredo e bênção.

6. Examinando os Śāstras com grande aplicação, eu, Vināyaka, componho este texto Śāstra, chamado Siddhāntapañjara “um conjunto de conclusões filosóficas” para meu próprio esclarecimento.

7. Todo o mundo, tudo o que se move e tudo o que não se move está submerso num oceano de ātman; contudo as pessoas iludidas por māyā não sabem disso.

8. Tal como o homem, apesar de sedento, abandona as águas frias para tentar aplacar a sua sede nas águas da ilusão,

9. O ignorante, na sua confusão abandona a bem-aventurança do Ātman e mergulha no oceano sem limites (do samsāra).

10. Pensado na morada no ventre materno e, depois de ter nascido, na dependência baseada na ignorância,

11. depois no medo dos outros, no pai, nos mais velhos e nas crianças, e mais tarde na separação da família, nos filhos e na mulher, e também na morte,

12. nas aflições do corpo e da mente, uma determinada pessoa de mente agitada, mas equipado com qualidades como o autocontrolo, pergunta isto ao seu professor:

13. “Ó Senhor, desejo saber quem anda errante neste ciclo de existências e qual a natureza da sua ligação com o ciclo de existências e como”?

14. Assim, com este requisito do discípulo, que é desprendido e desejoso de libertação, o preceptor que conhece a essência dos princípios de todas as escolas de filosofia, que teve a experiência do seu eu interior,

15. e que explica a verdadeira natureza do eu em benefício das pessoas, replicou ao discípulo depois de saber o que este tinha em mente.

16. – 18. “Mãe, pai, filho, familiares, e amigos, esposa, etc., o Brahman, a casa, os campos, etc., regiões como Satya, e o desejo de viver, uma e outra vez, os professores, os mais velhos, a devoção e sempre o apego a todos eles, a ligação e a libertação, os méritos e os pecados e a crença neles  a isto chama-se Samsāra.

19. Ele que se mantém como o criador de tudo isto e como seu activador, é chamado Samsārin pelos estudiosos deste mundo.

20. Quando é este o caso, o visível é chamado de Samsāra, e a transmigração toma a forma do Samsāra. Como vem explicado a seguir.

21. Digo-vos que o Samsāra apoia a forma visível do Eu Supremo omnipresente.

22. O poder supremo reside no firmamento da consciência que tem a forma de conhecimento; ele deve ser considerado como o seu poder natural, tal como o calor está para o fogo.

23. O poder não deverá ser diferente do detentor do poder. A capacidade de iluminar pertence ao Eu Supremo.

24. O universo das formas grosseiras pressupõe-se estar no seu centro, tal como a árvore já existe na semente da árvore.

25. Até mesmo o Senhor Supremo se torna perfeito, devido ao Poder Supremo; ele entra num instante, em todas as personalidades do deus Śiva que vêm à terra.

26. É difícil para um não-inerte (sensível) comportar-se como um inerte; sabei que isso é a liberdade de māyā.

27. O Senhor Supremo está livre de personalidades como o alimento físico; ele entra nas diversas personalidades como inerte ou como sensível.

28. No entanto, os poderes são diferentes nestas personalidades diversas; o poder de ouvir inerente nos ouvidos não está presente nos olhos.

29. O poder olfactivo do nariz não está presente na língua; os poderes noutras personalidades são também diferentes da mesma forma; compreendei isto.

30. Mesmo sendo o Eu uno, apesar dos corpos serem muitos, assim também, apesar das personalidades serem diferentes, em todas elas a essência é uma só.

31. Assim, todos os objectos visíveis constituem o Samsāra; Deus que toma todas as formas contraídas é o Samsārin (o eu incorporado). Sabei isto.

Capítulo 2

32. Afirma-se que o corpo é Samsāra (transmigração) e o Eu é o Samsārin (transmigrador). Explicarei agora a relação entre o corpo e o incorporado.

33. O corpo, apesar de inerte, age sempre; o Eu, apesar de sensível não age nunca.

34. Tal como o ferro reage em presença do magneto, do mesmo modo o corpo só age devido à presença do sensível (Eu).

35. Tal como as pessoas executam as suas acções quando nasce o sol, o sol não é nem o agente nem a causa, do mesmo modo o grande Eu.

36. O pedaço de madeira não tem jamais o poder de arder e de cozinhar, mas identificando-se com o fogo, é capaz de realizar ambos.

37. Do mesmo modo o corpo não tem nunca, em tempo algum, o poder de agir e de conhecer, mas é capaz de ambos, identificando-se com o Eu.

38. Tal como a pujança ou a insignificância do fogo tem por base o pedaço de madeira, tal é o caso do Eu ao identificar-se com o corpo.

39. O corpo contém sempre em si a inércia, pois essa é a sua natureza, e o Eu tem a sensibilidade porque a sensibilidade é a natureza do Eu.

40. Em sono profundo todos os corpos se tornam inconscientes durante algum tempo. Mesmo assim o Eu, que é o Eu Supremo, estará consciente.

41. “Não sabia nada”  este conhecimento existe mesmo assim; tal como a lembrança “Eu dormi profundamente”, vem mais tarde.

42. Assim, este corpo, apesar de insensível, devido à presença do citt (consciência) acredita ser o profeta, o realizador e o beneficiador.

43. Assim é por causa da associação mútua do corpo com o Eu que o corpo se torna o conhecedor e o agente.

44. Eis a noção de Eu Supremo que é o Eu incorporado “Eu Sou”. Esta, oh estudante, é a relação de identificação entre eles, que se toma em consideração.

Capítulo 3

Discípulo:
45. O mundo visível é o samsāra (transmigração) e o Eu é o transmigrador (Samsārin); a relação de identidade entre eles estabeleceu-se ser māyā.

46. Oh Senhor, que explicastes amavelmente quem é o Samsārin; também gostaria de ouvir a sua definição, se for elegível.
Preceptor:

47. Os sábios deveriam conhecer o Ātman, com o nome triplo de Ātman, paramātman e jīvātman devido a atitudes diferentes.

48. Como reflexo do mundo, permanece meramente consciência. Isto é na verdade Ātman, declaram os conhecedores de todas as escrituras.

49. O espaço é o seu corpo dentro do qual se manifesta espontaneamente. Tal como a manteiga permeia o leite, assim faz o Ser Supremo no espaço.

50. A percepção do leite e do espaço é aceitável por todos, (mas) de modo algum a perceptibilidade da manteiga e de paramātman.

51. Batendo o leite e o oceano das escrituras, emergirá indisputavelmente a percepção delas, através das experiências individuais (de paramātman) e pela visão (da manteiga).

52. Quando o conhecimento “Eu sou Īśvara” acontece ao incorporado através do ensinamento do preceptor, ou pela experiência individual, ou mesmo através de méritos alcançados,

53. Então este agente, independente, da forma da luz, o ser mais elevado, é chamada Ātman pelos sábios estudiosos da essência de todas as escrituras.

54. Ele que detém a forma da luminosidade pela experiência pessoal, independente, Senhor Supremo  nele aparece o grande universo como um grupo de nuvens no céu.

55. Explicarei agora a natureza de um tal Ser Supremo da forma da consciência, absoluto, auspicioso, e que se declara ser paramātman.

56. Ele que existe dentro e fora do mundo sob a forma de consciência, é na verdade chamado de paramātman pelos sábios.

57. Tal como há sempre a inerência do sal à superfície e à profundidade das águas no oceano, assim também a penetração de Ātman, dentro e fora do mundo é eterna.

58. Tal como um pote se afunda na água devido à água que nele penetrou, assim também todo este mundo, na verdade mergulha no Ātman.

59. O incorporado, que é uniformemente omnipresente, na forma de consciência para ele, o que tudo penetra, não existe movimento qualquer que ele seja.

60. Tal como o espaço fechado dentro do pote não se movimenta com o pote quando este é deslocado, assim também o incorporado não acompanha o corpo quando este parte.

61. Tal como o sol se movimenta, só quando a água dentro do pote se movimenta, assim também o omnipresente (parece) se move quando o corpo se desloca.

62. Tal como o espaço que permeia o mundo, dentro e fora dele, permanece solto e ininterrupto.

63. Assim, também o incorporado, tendo penetrado todo o mundo com a sua inteligência suprema, ele mesmo permanece sem relação e imutável.

64. Assim, o ser que tendo penetrado este mundo permanece, é na verdade chamado de paramātman pelos seus conhecedores.

65. Quando, devido à não-discriminação, este ser ascende do corpo cósmico, vez após vez, e habita nesta parte (da vida animada) ex. o corpo,

66. Então, no mundo, chama-se jīva, nome dado pelos conhecedores da essência de todas as escrituras e que são devotados ao bem do mundo.

67. E o incorporado que erra através dos vários estádios de torpor, sonho e sono profundo, assim como aqueles estados de criação, preservação e destruição,

68. Associados sempre a viśva (o estado de desperto), etc., nestes três estádios, neles como agente, sabei que é jīva, oh virtuoso.

69. E quem, ao declarar “isto é eterno”, “deixai que seja meu”, age no mundo, sabei que é jīva, oh formoso.

70. E aquele que, quando o corpo perece no mundo, permanece no corpo subtil, e torna-se o fruidor dos frutos das acções, ele é chamado de jīva.

71. Aquele que incorpora, que no estado de acordado experiencia os objectos do mundo com os 14 órgãos dos sentidos, compreendei que isto é jīva, oh discípulo.

72. Aquele que, ao tornar-se observador, etc., nos sonhos, experiencia através deles, mais uma vez, em sono profundo e existe sob a forma de ignorância, sabei que é jīva.

73. Oh discípulo, conhecei pois o senhor transmigrador que existe nos três estádios. Tendo definido isto com clareza, que é que mais desejais ouvir?

Tradução de Ana Isabel Marques
   


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Impresso em 16/6/2024 às 15:28

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