Fundação Maitreya
 
Jesus Cristo segundo Rudolf Steiner - 3ª Parte

de Zelinda Mendonça

em 31 Mar 2011

  Jesus Cristo peregrinou inicialmente de albergue em albergue; por toda a parte, trabalhava na casa das pessoas e junto com elas. O que experimentara com a sentença de Arimã sobre o pão deixara-lhe uma profunda impressão. Por toda a parte ele encontrava as pessoas que já o conheciam e com as quais já trabalhara antes. Elas o reconheciam e ele realmente encontrou o povo a que Arimã tinha acesso, pois eles tinham necessidade de converter pedras em pão, ou o que vem a ser o mesmo – converter dinheiro, metal, em pão. Ele não precisava entrar nas casas dos que seguiam as doutrinas de Hillel ou outras, mas ingressava nas daqueles que os outros evangelhos denominam publicanos e pecadores, pois eram os que dependiam da transformação das pedras em pão. Foi especialmente com estes que ele conviveu muito.

7 - Peregrinações de Jesus Cristo

Muitas pessoas já o conheciam como Jesus de Nazaré, elas conheciam o seu modo suave, carinhoso, sábio; e em cada lar, em cada albergue, ele se havia tornado muito querido das pessoas.
Essa estima se conservava. Nessas casas muito se falava do homem bom, de Jesus de Nazaré, que por ali passara. Algumas dessas famílias se reuniam após o trabalho, depois do pôr-do-sol, e gostavam de falar sobre o homem afectuoso que estivera com eles quando era Jesus de Nazaré. Contava-se do seu amor e bondade, dos seus sentimentos belos e calorosos que os haviam permeado quando esse homem vivera sob o seu tecto.

Em diversas dessas casas, depois de falarem horas a fio, acontecia que a imagem desse Jesus penetrava na sala, como uma visão comum a todos. Sim, ele os visitava em espírito, ou também eles criavam a sua imagem espiritual.
Agora podem imaginar o que essas famílias sentiam quando ele lhes aparecia naquela visão comum a todos, e o que significou para essas famílias o facto de ele voltar agora, após o baptismo no Jordão, quando eles o reconheciam pelo seu aspecto exterior; só que o olhar se tornara mais brilhante.
O que se lhes manifestava agora era a natureza transformada de Jesus Cristo; manifestava-se especialmente o Jesus transformado pela incorporação de Cristo.
Antes eles sentiam o seu amor, a sua bondade e doçura, agora emanava dele uma força mágica. Se antes se sentiam consolados, agora sentiam-se curados.
As pessoas iam ter com os vizinhos trazendo-os para as suas próprias casas quando eles também estavam atormentados.
Assim Jesus Cristo conseguiu realizar, entre as pessoas que estavam sob o domínio de Arimã, o que na Bíblia está descrito como a expulsão dos demónios.
Muitos daqueles demónios que ele vira no altar dos sacrifícios se afastavam das pessoas quando ele se aproximava. Os demónios viam nele o seu adversário.

8 - Surgimento do Pai-nosso
O contacto com as pessoas fez-lhe lembrar o Bath-Kol, que lhe revelara a antiga oração dos mistérios. Na sua mente se destacava a linha central dessa oração: “vivenciada no pão de cada dia.”
Aqueles que ele estava visitando tinham de transformar as pedras em pão. Dentre essas pessoas com as quais ele convivera, muitos só viviam do pão. E as palavras daquela oração pagã antiga, “vivenciada no pão de cada dia”, gravaram-se profundamente na sua alma.
Jesus Cristo sentia que na evolução da humanidade, por causa da necessidade do pão, os homens esqueceram o nome dos pais que estão nos céus, os nomes dos espíritos das hierarquias superiores. Convenceu-se então de que fora a vida no pão de cada dia que havia separado os homens dos céus e os conduzira ao egoísmo e a Arimã.

Quando repleto de tais pensamentos ele caminhava pela região, os que mais profundamente perceberam como Jesus estava transformado, tornaram-se seus discípulos e o seguiram. De diversos albergues ele levou consigo este ou aquele seguidor, que o acompanhava por ter a forte sensação das suas mudanças. Assim não tardou que se juntasse todo um grupo de tais discípulos.
Cristo tinha pois ao seu redor, homens que possuíam uma nova atitude básica nas suas almas. Graças a ele, tais homens se haviam tornado diferentes daqueles que não eram capazes de ouvir as verdades antigas.
Então a sua experiência terrena o iluminou: “o que devo comunicar aos homens, não é o modo como os deuses abriram o caminho do Espírito para a Terra, mas sim como os homens podem encontrar o caminho da Terra para o Espírito.”
Neste momento soou-lhe a voz do Bath-Kol, e ele soube que as fórmulas e orações de outrora precisavam ser “renovadas”; soube que agora o homem deveria procurar, de baixo para cima, o caminho para os mundos espirituais.
Então inverteu a última linha da oração pois assim era apropriado aos homens da nova era; estes não deveriam referir-se às muitas entidades espirituais das hierarquias, mas sim ao ser espiritual UNO.

“Pai-nosso que estais no céu” em vez de “e esqueceu os vossos nomes”, inverteu-a para “santificado seja o seu nome”. Em vez da penúltima linha que dizia “pois o homem se apartou do vosso reino”, ele a inverteu para: “venha a nós o teu reino”. E a linha “em que não actua a vontade dos céus” ele inverteu, porque deveria haver uma inversão completa do caminho para os mundos espirituais: “seja feita a tua vontade, assim na Terra como no céu”. E o mistério do pão, da encarnação no corpo físico, o mistério de tudo o que agora se lhe revelara plenamente por meio do aguilhão de Arimã, ele transformou de maneira que os homens percebessem que também o mundo físico provém dos mundos espirituais, embora o homem não o perceba de imediato. Assim transformou-se a linha “vivenciada no pão de cada dia “ num pedido “o pão-nosso de cada dia dá-nos hoje”. As palavras “a culpa pessoal, por outros provocada”, ele as inverteu para “perdoa-nos as nossas dívidas, assim com nós perdoamos aos nossos devedores”. E a linha que era a segunda na antiga oração dos mistérios: “testemunham o eu que se desprende”, ele a inverteu dizendo: “mas livra-nos”; e a primeira linha “reinam os males”, transformou-se em “do mal amem”.

E assim o que a cristandade ficou conhecendo como o Pai-nosso é a inversão das palavras proferidas pela voz transformada do Bath-Kol que Jesus ouvira ao cair prostrado no altar, transformando-se no que Cristo Jesus ensinou como sendo a nova oração dos mistérios.

Aqui se reproduzem os textos completos.

“AUM, amem!
Reinam os males
Testemunham o eu que se desprende,
A culpa pessoal por outros provocada,
Vivenciada no pão de cada dia,
Em que não actua a vontade dos céus,
Pois o homem se apartou do vosso reino
E esqueceu os vossos nomes,
Ó pais que estais nos céus.”

Pai-nosso, que estais nos céus,
Santificado seja o Teu nome,
Venha a nós o Teu reino,
Seja feita a Tua vontade, assim na terra como nos céus.
O pão-nosso de cada dia dá-nos hoje
E perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores,
E não nos deixes cair em tentação,
Mas livra-nos do mal. Amem.

Foi de forma semelhante que surgiu a revelação do Sermão da Montanha e outras ensinadas por Jesus Cristo aos seus discípulos.

Cristo usou, de certo modo, as roupas dos cultos antigos, mas só as vestiu como uma roupagem, sendo que agora, o conteúdo passou a ser o próprio Cristo.

Sobre os seus discípulos Jesus Cristo actuava de modo bem singular. Quando ele percorria a região, o efeito que exercia sobre os que o rodeavam era muito peculiar, era como se não estivesse somente no seu corpo; quando ele percorria a região, um ou outro discípulo, sentia às vezes como se o Mestre estivesse agindo dentro da sua própria alma e se punham a falar o que na realidade só Jesus Cristo sabia dizer.

Esse grupo caminhava pela região e encontrava pessoas, e quem falava nem sempre era Jesus Cristo; às vezes também falava um outro dos discípulos; pois ele compartilhava tudo com os discípulos inclusive a sabedoria.
No diálogo com o saduceu relatado no evangelho de Marcos, Jesus Cristo não falou a partir do corpo de Jesus, mas sim de um dos discípulos. Este fenómeno também acontecia quando Jesus Cristo deixava o grupo, ficando não obstante entre eles

Cristo continuava a percorrer o país com um grupo agora mais numeroso. Eles pregavam em muitos lugares – aqui falava um, ali outro do grupo de apóstolos, podendo-se crer ser Cristo quem falava. Pregavam ora num, ora noutro lugar e em ambos se podia crer ser Cristo quem falava, pois ele se revelava através de todos eles.

É possível observar uma conversa entre os escribas através da Crónica do Akasha. Eles diziam:
“Para provocar o afastamento do povo podíamos prender qualquer um deles e matá-lo; mas poderia não ser a pessoa certa, pois todos eles falam da mesma maneira. Isso não serviria, porque talvez o verdadeiro Jesus Cristo continuasse por aí. Temos de apanhar o verdadeiro”.

Só os próprios discípulos podiam reconhecê-lo, mas certamente não revelariam ao inimigo qual era o verdadeiro.

Todavia Arimã se havia tornado suficientemente forte em relação à questão em aberto (ganhar o pão de cada dia pela transformação das pedras em pão). Cristo não conseguiria ajustar esta questão nos mundos espirituais, mas somente na Terra.
Por meio do acto mais pesado e culposo, Ele estava destinado a experimentar o que significa fazer das pedras pão.

Arimã usou como instrumento Judas Iscariotes.

Ele não teria sido reconhecido senão pelo facto de um dos seus se colocar ao serviço de Arimã.

Judas cometeu a traição somente pelo dinheiro

Esta traição aconteceu porque Arimã guardou para si, como aguilhão, o facto de Cristo desconhecer o que era transformar as pedras em pão.

Então Cristo teve de ser subjugado pelo Senhor da Morte, isto é Arimã. É deste modo que o episódio da Tentação e o Mistério do Gólgota se relacionam com a traição de Judas.

Se lembrarmos tudo o que foi dito, sobre o desenvolvimento de Jesus de Nazaré vemos que a História Universal providenciou coisas extraordinárias, ao criar dois corpos e fazer com que a individualidade de Zaratustra habitasse primeiro o corpo de Jesus Salomónico até aos 12 anos de idade e depois o corpo do Jesus Natânico dos 12 aos 30 anos.

Jesus de Nazaré era uma pessoa do mais alto nível, mas não ascendeu pelo mesmo caminho que a individualidade de um adepto caminhando duma encarnação a outra. Foi diferente.
Na idade de 30 anos, quando a individualidade de Cristo penetra no corpo de Jesus de Nazaré, este abandona justamente esse corpo e a partir do momento do baptismo no Jordão (se deixarmos de lado Cristo) temos diante de nós um homem formado somente pelos corpos físico, etérico e astral, servindo de suporte para Cristo. Devemos distinguir entre o suporte de Cristo e o próprio Cristo que vive dentro desse suporte.

As forças desenvolvidas por uma individualidade não se situam nos invólucros exteriores e sim no fio da vida do eu que segue de encarnação em encarnação. As forças que pertenciam à individualidade de Zaratustra e se encontravam no corpo de Jesus de Nazaré, a fim de prepará-lo saem com a individualidade de Zaratustra. O que permanece é uma estrutura humana, mas que não poderia ser chamada de estrutura de um adepto; trata-se de um homem, um homem muito frágil.

Este ser humano no momento em que é abandonado por Zaratustra e a individualidade de Cristo o ocupa, envia ao seu encontro tudo o que normalmente emana da natureza humana do homem: o Tentador. E foi por isso que Cristo teve de passar por todas as preocupações e estados de desespero do Monte das Oliveiras.

Não pode chegar a um autentico conhecimento da essência de Cristo quem ignore que a entidade crística não habitava num homem situado no elevado nível de um adepto, mas num homem simples que se diferenciava dos outros pelo facto de ser apenas o invólucro humano abandonado por Zaratustra. O suporte de Cristo foi um homem e não um adepto. Reconhecendo-se isso, abre-se uma perspectiva de toda a essência dos acontecimentos do Golgota e da Palestina em geral.
O que permanece é uma estrutura humana frágil constituída pelos corpos físico, etérico e astral.
Com quem se relacionava então a vida de Jesus Cristo entre os 30 e os 33 anos? – Não com a individualidade que seguira de encarnação em encarnação mas com a individualidade que do cosmos penetrara no corpo de Jesus. Uma individualidade que nunca antes estivera ligada à Terra mas que se ligara a um corpo humano a partir do Cosmos. Neste sentido, os factos que se desenrolaram entre os 30 e os 33 anos de Jesus Cristo, eram próprios do deus Cristo e não de um ser humano.

O que aí acontece relaciona-se com os factos ocorridos antes mesmo que um fio de vida como o nosso penetrasse num organismo humano físico. Temos de retroceder até à antiga época lemúrica, até ao acontecimento mencionado no Antigo Testamento como “tentação pela serpente”. Esse acontecimento foi algo peculiar, e todos os homens sofriam as suas consequências ao encarnarem. Se ele não tivesse ocorrido, toda a evolução na Terra teria sido diferente, pois os homens teriam passado de uma encarnação à seguinte num estado de muito maior perfeição.

Aquilo que normalmente é conhecido como o “Pecado Original” despertou o homem para a sua actual individualidade. O ser humano não é responsável pelo pecado original. O pecado original é o envolvimento muito profundo do homem com a matéria e é da responsabilidade dos espíritos luciféricos.
Com este facto o homem pode chegar à força do amor e à liberdade, mas isto foi-lhe imposto.
Este envolvimento com a matéria não foi um feito humano porque ocorreu antes que os homens fossem capazes de tomar parte activa no seu destino. Foi algo que as potências superiores, dirigentes da evolução contínua, combinaram com os seres luciféricos.

O que então ocorreu necessitava de uma compensação. O pecado original, a Queda, ocorrera ao homem em estado pré-humano, exigia uma compensação, algo que tampouco fosse assunto humano, mas um assunto dos deuses entre si.
Esse assunto teve de se concretizar tão profundamente abaixo da matéria quanto se desenrolou acima da matéria o outro acontecimento, ocorrido antes que o homem fosse vinculado à matéria.
Deus teve de imergir na matéria tão profundamente quanto havia levado o homem a fazer.
Entreguemo-nos a toda a gravidade desse facto, e compreenderemos que essa encarnação de Cristo em Jesus era um assunto do próprio Cristo, dos deuses.
Qual foi então o chamamento dirigido ao homem? Em primeiro lugar ele devia ver como Deus compensa o feito do “pecado original”.
Isso não teria sido possível dentro da personalidade de um adepto; pois tal personalidade teria conseguido redimir-se pelas suas próprias forças da queda na matéria. Isso só era possível numa personalidade que não se destacasse dos outros homens.
Jesus só se destacou dos outros homens até aos 30 anos, altura em que Zaratustra abandona o seu corpo físico, etérico e astral, deixando a possibilidade de Cristo o ocupar.
E os homens participaram de um acontecimento que se desenrolou entre deuses, podendo vê-lo porque os deuses precisaram recorrer ao plano físico, a fim de possibilitar a realização desse assunto.
Por isso é melhor dizer que Cristo ofereceu um sacrifício num corpo físico em lugar de qualquer outra fórmula. E para o homem tratou-se de assistir a um problema entre deuses.

9 - A Ressurreição
A compreensão do problema da ressurreição é essencial para entender o cristianismo?

9.1 – O ponto de vista de Paulo
A importância deste problema para Paulo ressalta da Primeira Epístola de Paulo aos Coríntios (cap. 15, 14-20):

“Mas se Cristo não ressuscitou, vazia é a nossa prédica, vazia também é a nossa fé. Mas então seríamos também descobertos como falsas testemunhas de Deus, porque testemunhamos contra Deus que ele teria ressuscitado Cristo, enquanto de facto não ressuscitou, se realmente os mortos não ressuscitam. Pois se os mortos não ressuscitam, tampouco Cristo ressuscitou. Mas se Cristo não ressuscitou, vossa fé é ilusória, e assim ainda estais em vossos pecados; então também estão perdidos aqueles que adormeceram em Cristo. Se somos apenas aqueles que nesta vida nada possuem além da sua esperança em Cristo, somos os mais dignos de compaixão de todos os homens. No entanto, Cristo ressuscitou dos mortos como as primícias dos adormecidos.”

Convém frisar que o cristianismo, tal como se espalhou pelo mundo partiu de Paulo. E se aprendermos a levar a sério as palavras, não devemos passar por cima das declarações mais importantes de Paulo, dizendo simplesmente que deixamos sem explicação todo o mistério da ressurreição.
O que disse Paulo? – Se a ressurreição não foi um facto real, todo o cristianismo carecia de base, e acreditar no Cristo não faria sentido. Foi isto o que disse Paulo de quem emana o cristianismo, como facto histórico. E isso não significa senão que o cristianismo, no sentido de Paulo, deveria ser abandonado por quem não admitisse a ressurreição.

Os evangelhos devem ser vistos como documentos relacionados com a iniciação, mas, por vezes, fazem descrições directas de factos reais. Será que a seguinte descrição do evangelho de João não deixa, curiosamente a impressão de referir-se a um facto real?

“No primeiro dia da semana, Maria Madalena vai ainda de madrugada até ao sepulcro, e vê a pedra do sepulcro retirada. Então corre e vai até Simão Pedro e ao outro discípulo, que Jesus amava, e diz-lhes: “Retiraram o Senhor do sepulcro, e não sabemos onde o colocaram.” Pedro saiu, então com o outro discípulo e foram até ao sepulcro. Ambos andavam juntos, mas o outro correu mais depressa do que Pedro e chegou primeiro ao sepulcro. Inclinou-se e viu os panos de linho no chão, mas não entrou. Então Simão Pedro chega depois dele e entra no sepulcro; vê os panos de linho, e o sudário que havia sido colocado sobre a cabeça de Jesus não estava junto dos panos, mas enrolado à parte em certo lugar. Então entrou também o outro discípulo que chegara primeiro ao sepulcro, e viu e creu. Pois eles ainda não haviam compreendido a escritura segundo a qual ele deveria ressuscitar dos mortos. Os discípulos, então, voltaram para casa. Maria, porém, estava diante do túmulo e chorava do lado de fora. Enquanto chorava olhou para o túmulo, e viu dois anjos vestidos de branco, sentados um à cabeceira e outro aos pés do local onde eles haviam depositado o cadáver de Jesus. E eles lhe disseram: “Mulher, porque choras”? Ela lhes disse: “Levaram o meu senhor, e eu não sei onde o puseram”. E dizendo isto, ela se voltou e viu Jesus de pé, e não sabia que era Jesus. Disse-lhe Jesus: mulher porque choras? A quem procuras?” Ela pensou que fosse o jardineiro, e disse-lhe: “Senhor tu o levaste? Dize-me onde o puseste? Quero buscá-lo.” Disse-lhe Jesus: “Maria!” Então ela se voltou e disse-lhe: Raboni!”, isto é, “Mestre”. Disse-lhe Jesus: “não me toques, pois ainda não subi para o pai!”
(evangelho de João 20, 1-17)

Eis uma situação descrita com tantos detalhes que quase nada parece faltar quando procuramos imaginar a cena. Temos um relato com pormenores que não fariam sentido caso não se referissem a factos reais.
Há outro ponto do relato a destacar: Maria não reconhece Jesus Cristo. Como seria possível não reconhecer, passados três dias, uma pessoa familiar? É preciso levar em conta que Cristo apareceu a Maria com um aspecto transformado; de contrario, tão pouco essas palavras fariam sentido.

Podemos portanto afirmar duas coisas:

1 – Temos de considerar a ressurreição como o despertar dos antigos mistérios de todos os tempos tornado realidade histórica com uma diferença apenas: nos mistérios, a pessoa que despertava os candidatos era o hierofante; nos evangelhos, porém, indica-se que quem despertou Cristo foi a entidade a que chamamos Pai, foi o próprio Pai que despertou Cristo. Somos também informados de que o processo desenrolado outrora em escala reduzida nas profundezas dos mistérios, foi colocado pelos espíritos divinos diante da humanidade no Gólgota, e que o ente denominado Pai exerceu a função de hierofante para despertar Jesus Cristo. Temos pois levado à dimensão máxima o que acontecia em escala menor nos mistérios.

2 – O outro facto é que os aspectos que lembram os mistérios são entretecidos com descrições de detalhes tais que podemos reconstruir até nos seus pormenores as situações mencionadas nos evangelhos. E há ainda outro aspecto mais importante. Devem ter um sentido estas palavras: “Pois eles ainda não haviam compreendido a escritura segundo a qual ele deveria ressuscitar dos mortos.”

Quanto mais nos aprofundamos no texto, melhor constatamos que os discípulos reunidos na sepultura verificaram a presença dos lençóis e a falta do cadáver; voltaram pois, perguntando-se onde estaria o corpo e quem o teria levado.
É deste modo que os evangelhos nos conduzem aos factos que convencem os discípulos de ter ocorrido a ressurreição. E como são convencidos? Pelo facto de Cristo lhes ter aparecido sucessivamente; então eles puderam dizer: “ele está presente!” E as coisas chegaram ao ponto de Tomé colocar os seus dedos nas chagas. A sua presença era a prova. E se alguém tivesse perguntado aos discípulos o verdadeiro conteúdo da sua fé eles teriam respondido terem provas de que ele estava vivo.
Mas não teriam falado da maneira como o fez Paulo depois de ter passado pela vivência de Damasco.
Quem se dedicar a compreender o evangelho e as epístolas de Paulo perceberá a profunda diferença entre a visão dos evangelistas, para quem a prova da ressurreição estava na presença de Cristo entre eles, e a de Paulo. Paulo estabelece um paralelo entre a sua concepção da ressurreição e a dos evangelhos; pois ao falar de Cristo ressuscitado menciona ter este aparecido em esplendor espiritual depois de crucificado, como um homem vivo, a Cefas, aos doze, depois a quinhentos irmãos ao mesmo tempo e por fim a ele próprio.

Paulo chama Adão de ancestral dos homens na Terra. Mas de que maneira? Precisamos ir longe para obter resposta a essa pergunta. Ele chama de ancestral por ver nele o primeiro ser humano do qual descendem todos os outros homens. E isso significa para Paulo, aquele que transmitiu aos homens o corpo físico. Todos os homens herdaram de Adão o corpo físico. Trata-se daquele que nos aparece na “maya” exterior, sendo mortal; trata-se do corpo físico herdado de Adão, perecível e sujeito à morte. É este corpo que veste os homens.

O segundo Adão, o Cristo, Paulo o considera, ao contrário, possuidor de um corpo imperecível, imortal. E Paulo admite que os homens conseguem paulatinamente, por meio de uma evolução cristã, colocar o segundo Adão no lugar do primeiro – vestir no lugar do corpo perecível do primeiro Adão o corpo imperecível do segundo, Cristo.

Segundo Paulo todo o cristão deveria declarar: “por ser descendente de Adão, possuo um corpo perecível tal como ele o possuía; posicionando-me correctamente em relação a Cristo recebo dele o 2º Adão, um corpo imperecível”.
Paulo exige, pois, que todos os que se denominam cristãos façam surgir dentro de si mesmos algo real, remetendo ao elemento que no 3ºdia se levantou do túmulo onde fora colocado o corpo de Jesus Cristo. Quem não aceitar esta ideia não poderá ter uma relação correcta com Paulo, nem dizer que o compreende.
Se descendemos de Adão, pelo nosso corpo perecível, temos a possibilidade de ter um segundo corpo ancestral, ao identificarmos a nossa essência com a essência de Cristo, aquele que ressurgiu do túmulo.

Como justificar esta posição de Paulo?

Esta exigência de Paulo é bastante incómoda para o pensar moderno.
A afirmação de Paulo relativa à ressurreição e ao segundo Adão, só pode ser feita por alguém que pela sua maneira de pensar estivesse enraizado na cultura grega, mesmo que pertencesse ao povo hebraico; isto por ter sacrificado de certa forma, o seu hebraísmo à concepção grega.

Qual é o real sentido da afirmação de Paulo?
Ele disse que a ressurreição triunfal de Cristo fez elevar-se do túmulo aquilo que os gregos amavam e estimavam, a forma exterior do corpo. Os gregos tinham a sensação trágica de que a forma exterior do corpo se perdia quando o homem passa pelo portal da morte.
Com base na sua mentalidade típica, Ulisses, o herói grego, exclamava: “É melhor ser um mendigo no mundo superior do que um rei no mundo inferior.” Ele dizia isto por estar convencido que a forma exterior do corpo, amado pelo homem grego, ficava perdida para sempre ao passar pelo portal da morte.
Paulo que divulgou o evangelho entre os gregos, pisou inicialmente no mesmo solo onde crescera essa disposição anímica trágica e embebida de beleza.
Não traímos as suas palavras ao traduzi-las da seguinte maneira: “Não perecerá no futuro aquilo que mais prezais: a forma do corpo humano; pois Cristo ressuscitou como o primeiro dos que renasceram de entre os mortos! A forma física não está perdida, mas devolvida à humanidade pela ressurreição de Cristo.” O que os gregos mais precisavam, o judeu Paulo, de formação profundamente grega, lhes devolveu com a ressurreição. Só um judeu tornado grego podia falar assim e jamais outro.

9.2 – O ponto de vista da Ciência espiritual

Como é que podemos abordar a ressurreição do ponto de vista da Ciência Espiritual?
Juntemos os elementos que conhecemos da Ciência Espiritual para formar, a partir dos nossos conhecimentos, uma ideia frente às afirmações de Paulo.
O homem é constituído pelo corpo físico, etérico e astral e pelo eu.
Se perguntarmos a alguém que se haja ocupado um pouco – mas não profundamente – com a Ciência Espiritual se ele conhece o corpo físico do homem, ele certamente responderá: “Naturalmente, pois vejo-o quando me acho diante de outra pessoa. Os outros corpos são membros supra-sensíveis e invisíveis que não enxergo; mas o corpo físico, esse, eu conheço bem.”
Será que realmente temos diante dos nossos olhos o corpo físico, quando nos defrontamos com uma pessoa empregando a nossa visão física comum e a nossa inteligência física?
O que os homens têm diante dos seus olhos quando vêem apenas com os olhos físicos e com o intelecto físico é um ser humano composto dos corpos físico, etérico e astral e do eu! Temos à nossa frente um conjunto organizado.
Mas dizer que temos ante os nossos olhos um corpo físico faz tão pouco sentido como se mostrássemos a alguém um copo cheio de água e lhe disséssemos, que é um copo de hidrogénio. A água é composta de hidrogénio e oxigénio; o homem é composto dos corpos físico, etérico, astral e do eu. O todo constituído por estes é visível no mundo físico exterior, mas como acontece com o copo de água em que não se vêem o hidrogénio e o oxigénio, o mesmo erro é cometido por quem afirmasse ver o corpo físico ao enxergar uma pessoa no mundo exterior.

O que o espectador vê não é um corpo físico, mas um ente quadruplo, e percebe o corpo físico apenas enquanto permeado pelos outros membros constitutivos da entidade humana. Mas aí ele está tão transformado quanto o hidrogénio na água, pelo oxigénio.

Se quisermos chegar perto da essência desse corpo físico, teremos de ter dele uma concepção, uma visão bem diferente.
A contemplação do corpo físico é um dos problemas difíceis da clarividência.

No momento da morte vemos o homem abandonar o seu corpo físico; mas será que ele realmente o abandona? O que é que o homem abandona realmente? – Deixa o que de mais importante o corpo físico possuía durante a vida: a forma, – no momento da morte ela começa a ser destruída. Há substâncias em decomposição e a forma não é mais típica.
O que é deixado para trás são as substâncias e elementos que normalmente também encontramos na natureza. Para a visão clarividente comum, a situação real é que o homem simplesmente deixa essas substâncias levadas à putrefacção ou à cremação, nada mais restando do seu corpo físico.
A clarividência comum visualiza, depois da morte, aquele aglomerado formado pelo eu e pelos corpos astral e etérico.
Em seguida o clarividente, ao progredir na sua experiência, vê o corpo etérico separar-se e um extracto desse corpo etérico acompanhar os outros dois membros, enquanto o resto se dissolve de uma maneira ou de outra, no éter cósmico geral.
Se o clarividente continuar a acompanhar o homem durante este período, verá novamente um estrato do corpo astral ser levado junto, enquanto o resto do corpo astral é entregue à astralidade universal. Os corpos físico, etérico e astral são portanto abandonados e o corpo físico parece limitar-se às substâncias e forças que vão ao encontro da putrefacção, da cremação ou de outra qualquer forma de decomposição.
Mas à medida que a clarividência se desenvolver o homem perceberá que as substancias e forças abandonadas com o corpo físico não constituem a totalidade deste, nem poderiam produzir toda a sua forma.

A essas substâncias e forças pertence ainda algo mais que teremos de denominar de “fantoma” do homem se quisermos falar de maneira objectiva.
O fantoma faz parte do corpo físico, é um complemento do corpo físico, sendo mais importante do que as substâncias exteriores, pois estas são apenas o enchimento da forma humana, como um carregamento de maçãs colocado num carro.
O fantoma é algo importante. As substâncias que se decompõem depois da morte, nós as encontramos também lá fora na natureza contudo elas são integradas na forma humana – é o fantoma que dá forma ao corpo físico. A compreensão do corpo físico não deve ser procurada no mundo da ilusão, em maya.
Sabemos que o fundamento, o germe desse fantoma do corpo físico foi lançado pelos Tronos (anjos) durante o período saturnino, tendo actuado nele os Espíritos da Sabedoria na época solar, os Espíritos do Movimento na época lunar e os Espíritos da Forma durante a época terrestre. É devido a essa actuação, que o corpo físico veio a ser o fantoma.
Chamamos os “Espíritos da Forma” por esse nome porque eles vivem no que chamamos de fantoma do corpo físico.
Se quisermos entender o corpo físico teremos de nos remeter ao seu “fantoma”.
A primeira coisa que existiu do corpo físico foi o fantoma, que não pode ser visto por olhos físicos. Trata-se de um corpo energético totalmente transparente. O que é visto pelo olho físico são as substâncias físicas que o homem ingere e assimila, e que preenchem essa forma invisível. Ao enxergar um corpo físico, o olho vê, na realidade, a matéria mineral que o preenche, e não o próprio corpo físico.

Como foi que o elemento mineral, tal como existe hoje, penetrou no fantoma?
O que adveio de Saturno, do Sol e da Lua é aquela aglomeração de forças que se nos apresenta na sua verdadeira essência no fantoma invisível do corpo humano, devendo apresentar-se como tal a uma clarividência superior somente ao se fazer abstracção de todas as substâncias exteriores que o preenchem. Esse fantoma é pois o ponto de partida. O homem, mesmo com físico seria invisível no momento inicial da sua evolução na Terra.
Se se acrescentasse ao fantoma o corpo etérico, o corpo astral e até o eu o homem continuaria invisível, perceptível apenas à clarividência.

Então o que o tornou visível? – Segundo o que narra a Bíblia simbolicamente e a Ciência Espiritual nos revela foi a influência Luciférica.
Segundo a Ciência Oculta o homem foi lançado para a matéria mais densa, que, sob a influência de Lúcifer, a incorporou conforme era preciso. Se não existisse no nosso corpo astral e no nosso eu, o que chamamos de força luciférica, essa materialidade densa não se teria tornado tão visível como veio a ser na actualidade.

Convém dizer que o homem deve ser considerado algo invisível tendo sido as influências de Lúcifer a torná-lo materialmente visível. É como se vertêssemos num copo transparente um líquido colorido de modo a tornar colorido o copo que normalmente era transparente para os olhos.

Assim devemos imaginar que a influência luciférica tenha preenchido a forma do fantoma com forças que capacitaram o homem a assimilar, na Terra, as substâncias e forças adequadas a tornar visível a sua forma habitualmente invisível.
O que torna o homem visível são portanto as influências luciféricas no seu interior. Sem elas o seu corpo físico teria permanecido invisível. Por isso os alquimistas sempre insistiram no facto de o corpo humano consistir, na realidade, da mesma substância em que consiste a “pedra filosofal”, totalmente transparente e cristalina.

O homem transformou-se no ser que acolhe as substâncias e forças da Terra, desfazendo-se delas com a morte.

Suponhamos agora que, em determinado momento da vida, o eu se exclua de um conjunto humano composto por ele mais os corpos físico, etérico e astral; teríamos diante de nós apenas os três corpos, mas não o eu. – Foi o que aconteceu com Jesus de Nazaré no 30º ano da sua vida tendo penetrado, no lugar do eu, o ser de Cristo.
Cristo encontra-se agora num conjunto humano como normalmente ocorre com o eu.

10 - O que diferencia Jesus Cristo de todos os outros homens na Terra?
- O facto de os homens trazerem em si aquele eu que outrora sucumbiu à “tentação” de Lúcifer, o que não acontece com Jesus.

Consideremos claramente o que é Cristo entre o baptismo no rio Jordão e o mistério do Gólgota: - é um corpo físico, um corpo etérico e um corpo astral, ocupado por Cristo.
Agora Cristo encontra-se num corpo humano, mas nem por isso humano como o que possuem os outros mortais. É um corpo mais perfeito. De tal forma se desenvolveu esse corpo, sob a influência de Zaratustra, que se achou capacitado a receber Cristo.

Só na Terra, ou seja no 4º dos períodos planetários é que surgiu aquilo que chamamos de eu que se uniu à essência humana.

(O corpo físico teve início no período de Satruno
O corpo etérico teve início no período Solar
O corpo astral teve início no período Lunar
O eu teve início no actual período Terrestre).

11 - Evolução do eu
A consciência do próprio eu nasceu apenas no fim da época atlântica. (mas o seu germe foi lá colocado já durante a época lemúrica, mas a consciência do eu era muito nebulosa e obscura. Também depois da época atlântica, através dos períodos culturais anteriores ao mistério do Gólgota, a auto-consciência foi, durante muito tempo, algo de embotado e onírico.

No povo hebraico a consciência do eu teve uma expressão toda particular. Era uma espécie de “eu étnico”, cada indivíduo ligava o seu eu ao ancestral Abraão – era pois um “eu grupal”, um eu de um povo inteiro.

Foi só no fim da época atlântica que a parte do corpo etérico separada ainda do corpo físico penetrou paulatinamente neste último. Só com a conjunção quase total do corpo etérico com o corpo físico foi possível a consciência.

O corpo físico desagrega-se quando o homem atravessa o portal da morte. Mas o que se desagrega não é o que os espíritos divinos prepararam, no decorrer dos quatro estados planetários para que na Terra se constituísse o corpo físico. O que chamamos de “fantoma” pertence ao corpo físico como um corpo formativo impregnando as substâncias incorporadas no nosso corpo físico, mantendo ao mesmo tempo a sua coesão.
As influências luciféricas levaram à destruição do fantoma do corpo físico.
É isto o que se exprime na Bíblia simbolicamente como o pecado original ser seguido da “morte” conforme reza o Velho Testamento.
A morte foi a destruição do fantoma do corpo físico. Como consequência, ao passar o portal da morte o homem assiste à decomposição desse corpo.
Durante toda a sua vida, do nascimento até à morte, o homem possui esse corpo físico em desagregação, ao qual falta a força do fantoma, pois a desagregação é um fenómeno constante, sendo a decomposição, a morte do corpo físico, apenas o último processo, o ponto final de uma evolução que no fundo é algo contínuo.

O que chamamos de “morte” ocorre quando não há, simultaneamente à destruição do fantoma, processos construtivos opondo-se a ela.
Se não fossem as influências luciféricas , existiria no corpo físico um equilíbrio entre as forças destrutivas (catabólicas) e as construtivas (anabólicas).
Neste caso, se houvesse equilíbrio de forças, toda a natureza humana teria sido outra durante a existência da Terra; não existia, por exemplo, uma inteligência incapaz de entender a Ressurreição.

A intelectualidade moderna tem dificuldade em compreender a ressurreição, e perante a dificuldade de a compreender nega-a.
Será que não há outra alternativa à negação?
Não se poderá considerar a hipótese de não ser culpa da ressurreição o facto de eu não poder compreender? - Talvez seja culpa do meu intelecto, impróprio para tal compreensão!

Que tipo de inteligência é essa que não consegue compreender a ressurreição?
Trata-se da inteligência vinculada à desagregação do corpo físico; este existe na sua consistência actual porque o homem ficou sujeito à destruição do fantoma do corpo físico, devido à influência luciférica.
Foi por esta razão que o intelecto humano se tornou tão débil, tão pobre, a ponto de não poder assimilar os grandes processos da evolução cósmica; ele os considera “milagres” ou então afirma ser incapaz de entendê-los.

Se não tivesse ocorrido a influência luciférica, a inteligência humana, graças à função a ela destinada, entenderia o processo edificador do mesmo modo como se entende uma experiência no laboratório.
A existência de forças construtivas no corpo fez com que estas se contrabalançassem com as forças destrutivas. Mas, da forma que ocorreu, a inteligência humana ficou na superfície das coisas, não olhando para as profundezas da realidade.

Concluímos portanto que no início da nossa era terrestre, a actuação de Lúcifer fez com que o corpo físico não viesse a ser o que deveria ser pela vontade das potências que actuaram em Saturno, no Sol e na Lua; nele se incorporou um processo destruidor. Desde então o homem vive num corpo físico sujeito à decomposição, sendo incapaz de opor às forças destruidoras forças construtoras equivalentes.
Sob este ângulo, seria verdade o que parece tão tolo ao homem moderno: existir uma relação secreta entre a actuação luciférica e a morte.
Nós ignoramos o que somos por não nos ser dado um corpo físico completo.
É verdade que costumamos falar da natureza e da essência do eu humano; mas até que ponto o homem conhece o eu? Este é tão duvidoso que o budismo até nega a sua existência enquanto algo que passa de uma encarnação a outra. Ele é tão duvidoso que os gregos foram dominados por uma sensação trágica que se traduzia nas palavras do herói grego: “vale mais ser um mendigo no mundo superior do que ser um rei no reino das sombras.”

Vendo a desagregação da forma do corpo físico, o homem tinha uma sensação de horror diante do pensamento de que o seu eu ficasse embotado

No decorrer da evolução terrestre o homem perdeu a forma do corpo físico, de modo a carecer daquilo que os deuses lhe haviam destinado desde o início. Havia, pois, a necessidade de recuperar isso; o homem tinha de readquiri-lo.

Na época dos acontecimentos da Palestina, o género humano havia atingido o ponto máximo da decomposição do corpo físico; naquele momento havia também o perigo de ser perdida a consciência do eu, a conquista essencial da evolução da Terra.
Se nada de novo se houvesse unido ao que existia até os acontecimentos da Palestina, se o processo tivesse continuado, o elemento destrutivo teria penetrado cada vez mais na corporalidade física do homem; e os homens teriam vivido com uma sensação cada vez mais embotada do seu eu.

Com o Mistério do Gólgota aconteceu que um homem, o portador de Cristo, passou por uma morte tal que desapareceu o elemento perecível do corpo físico e se ergueu do túmulo o corpo que sustenta dinamicamente os componentes físicos e materiais.
O que os regentes de Saturno, do Sol e da Lua haviam destinado ao homem foi o que emergiu do túmulo: o puro fantoma com todas as propriedades.
Os corpos perecíveis descendem do corpo de Adão.
Os corpos espirituais (os fantomas) descendem de Cristo.
Foi possível ao homem receber na sua organização as forças que então ressurgiram, da mesma maneira que ele recebera, devido às forças luciféricas, a organização adámica no seu corpo físico.

Resumindo, o que outrora fora retirado ao homem pela influência luciférica ele pôde receber de volta, pelo facto de isso existir como corpo ressuscitado de Cristo.
O que ressurgiu do túmulo veio a multiplicar-se do mesmo modo como se multiplica o óvulo, elemento primordial do corpo físico. Assim todo o indivíduo pode adquirir, na evolução consecutiva ao acontecimento do Gólgota, algo que está dentro dele e que descende do elemento ressuscitado do túmulo, tal como o corpo comum, sujeito à decomposição descende de Adão.
Num plano invisível está-se realizando um processo análogo à multiplicação do óvulo que em rigor se pode ver. O que aconteceu com o Gólgota foi um facto místico real. Para quem observa a evolução com a visão oculta, o facto é que aquela célula espiritual ressurgiu do túmulo e se comunica a todo o indivíduo que no decorrer do tempo, adquire o relacionamento apropriado com Cristo.

Este facto supra-sensível deve ser entendido da seguinte maneira: - aquilo que se eleva do túmulo transmite-se às pessoas que se encontram aptas para isso.

Consideremos portanto, e este é o ensinamento de Paulo, que o Mistério do Gólgota é algo real que ocorreu, e tinha que ocorrer, na evolução da Terra, pois constitui literalmente a salvação do eu humano.
Essa consciência do eu não só não teria progredido após os tempos de Jesus Cristo, como teria descido cada vez mais profundamente nas trevas. Da forma como aconteceu, a consciência do eu seguiu um caminho ascendente, devendo elevar-se na medida em que os homens se relacionarem correctamente com a entidade Crística.

Precisamos considerar aquilo que adveio ao mundo com o cristianismo, não só uma nova doutrina, mas algo real, efectivo.

Também a Terra beneficiou com a estada de Cristo.

12 - A aura da Terra e o momento do Gólgota
Imaginemo-nos alçados da Terra para uma estrela distante e com visão clarividente.
Ao olhar para a Terra lá de cima veríamos que a Terra é um corpo físico mas pertence-lhe também um corpo etérico e um corpo astral, tal como no homem. Veríamos a Terra circundada pela sua aura e veríamos ao longo de milénios, a evolução da aura terrestre. Veríamos a Terra circundada por diversas cores flutuando ao redor com diversas formas e cores contidas na atmosfera espiritual da Terra. Veríamos as modificações de tais cores e formas das maneiras mais variadas. Mas chegaria uma época de grande importância, na qual toda a aura assumiria uma outra forma e uma outra cor. Visto de fora a Terra surge numa nova luz; e isto acontece numa velocidade extraordinária, tanto que se deveria dizer que a partir desse instante ocorre uma transformação fundamental com a Terra – a aura terrestre transforma-se completamente.

E esse momento é o do Gólgota quando o sangue do Redentor escorre das suas chagas.

Este é o momento mais importante da evolução terrestre: o momento em que a aura da Terra se reorganiza. A substância do sangue derrama-se sobre a superfície terrestre, e o espírito que corresponda a esse sangue preenche a aura terrestre com novos impulsos e novas forças que têm o seu significado para a evolução futura da humanidade.

O acontecimento é fisicamente assinalado pelo derramamento das gotas de sangue sobre a Terra e que percebido de modo clarividente, desponta como algo que modifica a aura da Terra. A força que daí fluiu colaborará com a Terra por todo o futuro.
Assim surgiram novos impulsos e novas forças que têm significado para a evolução futura da Terra e da humanidade. Até hoje se cumpriu somente uma pequena parte daquilo que fluiu no momento do Gólgota.
A força que dali fluiu colaborará com a Terra por todo o futuro. O que se caracteriza como o princípio de Cristo ligou-se à Terra, e a Terra tornou-se o corpo do princípio cristico.
Sem o ingresso de Cristo no nosso mundo, o homem teria de sucumbir numa espécie de abismo. Devemos ter em mente que, neste período o homem desceu totalmente para dentro do mundo físico.

É nesta época que o homem se torna plenamente consciente como ser sensorial exterior, como personalidade. Assim era quando o conceito romano de Direito adveio ao mundo, quando cada um queria ser uma pessoa individual. Aí o homem alcança a linha que separa o mundo espiritual do abismo. Nesse ponto era possível mudar de direcção ou sucumbir.
Jesus Cristo deu à Terra a força que tornou possível à humanidade elevar-se novamente.

O essencial não é o que Cristo ensinou, mas o que ele ofertou

Os iniciados pré-cristãos recebiam a iniciação fora do corpo físico, superando o corpo físico, não implicava a ressurreição do fantoma. – Nunca acontecera de o fantoma integral atravessar uma morte humana completa e vencê-la.

A ressurreição de Cristo é o nascimento de um novo membro da entidade humana; o corpo imperecível.

Para que acontecesse a salvação do fantoma humano era necessário que:
1º - A entidade de Jesus Cristo fosse aquela descrita, composta dos corpos físico, etérico e astral, e além destes, da entidade crística, e não de um eu humano.
2º - Que o ser crístico resolvesse penetrar num corpo humano, encarnar-se num corpo físico.

A entidade crística existia como ser espiritual nos tempos anteriores ao início da evolução humana na Terra. No momento da crise da evolução humana, o Cristo encarnou-se no corpo de um homem. Este era o maior sacrifício que o ser crístico podia oferecer à evolução terrestre.

Jesus de Nazaré não possuía um eu humano a partir do baptismo, mas teve presente em si, a entidade cósmica de Cristo – por isso não se manifestaram forças de atracção entre o fantoma e as substâncias materiais. Durante esses três anos o fantoma não foi afectado pelas substâncias materiais.

Em linguagem oculta podemos dizer, que o fantoma humano não devia sentir atracção pelas substâncias cinerárias – só pelas substâncias salinas que se dissolvem e se transformam não em terra mas nos seus ingredientes voláteis.
Era essencial que qualquer união do fantoma com as substâncias cinerárias fosse destruída, aniquilada pelo baptismo no Jordão, pela penetração da individualidade cristica no corpo do Jesus natânico, só restando a união com os ingredientes salinos.

Quando Jesus Cristo foi crucificado, teve o seu corpo pregado na cruz. O seu fantoma estava inteiramente intacto e com uma união muito frouxa com os ingredientes materiais da Terra. Se fosse com qualquer outro indivíduo essa ligação seria muito mais forte.

Quando ele foi retirado da cruz, as partes ainda estavam aglomeradas, mas não tinham qualquer relação com o fantoma, pois este estava totalmente desligado da matéria.
Quando o corpo foi impregnado com certas substâncias (estas actuavam nele de forma diferente do que costumava actuar sobre outro corpo embalsamado) a matéria se volatilizou logo depois do sepultamento, transferindo-se para os elementos. Por isso, quando os discípulos vieram olhar encontraram os panos que cobriam o corpo, mas o fantoma ao qual está ligada a evolução do eu havia saído da sepultura. Não admira que Maria Madalena que só conhecia o fantoma permeado pelas substâncias da Terra, não o reconhecesse quando liberto das mesmas. Agora tinha conseguido perceber mas pela clarividência.

Paulo exprime a sua convicção de não ter sido o corpo impregnado com os elementos terrestres o que apareceu aos outros discípulos, mas sim algo que havia aparecido também a ele. (I Coríntios 15,3-8)
“…ele que foi sepultado e ressuscitou no 3º dia, segundo o que sempre constou das Escrituras; e que apareceu a Cefas, e depois aos Doze. Em seguida apareceu a mais 500 irmãos de uma vez, a maioria dos quais ainda vive, enquanto alguns adormeceram. Depois ele apareceu a Tiago, e mais tarde aos apóstolos reunidos; por último, porém, como a todos, apareceu para mim…”
De onde tirou Paulo tal convicção? – Ele já era um iniciado segundo os princípios hebraico e grego. Ele sabia que os indivíduos unidos ao mundo espiritual pela iniciação se haviam tornado, no seu corpo etérico independentes do corpo físico, – podendo aparecer a indivíduos particularmente capacitados na forma mais pura do corpo etérico.

Paulo teria falado de maneira diferente se lhe tivesse aparecido apenas um corpo etérico puro, independente do corpo físico, isto não teria sido algo surpreendente para ele. Não podia, portanto, ser isso o que ele experimentou às portas de Damasco; mas, do que experimentou, ele sabia que só pode ser experimentado “estando cumpridas as escrituras.
Pois foi isso o que ele viu. Foi isso o que lhe apareceu diante de Damasco e o convenceu de que “ele estava vivo, ele ressurgiria”. O fantoma perceptível a todos os indivíduos que buscam relacionar-se com Cristo.

O que ressurgiu da sepultura constitui uma espécie de germe para o restabelecimento do estado primordial do nosso fantoma.
O que, como germe, se elevou da sepultura com Cristo pode incorporar-se nas pessoas que conseguem encontrar um relacionamento com o impulso de Cristo.
   


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