Fundação Maitreya
 
O Yoga Vāsiṣṭha de Vālmīki

de Alejandro Corniero

em 13 Mai 2012

  O Yoga Vāsiṣṭha conhecido também como Mahārāmāyaṇa (O Grande Rāmāyaṇa) constitui um apêndice do Rāmāyaṇa, o grande poema épico hindu, atribuído ao sábio Vālmīki, e é composto por 32.000 versos (slokas). Utilizando a forma de um diálogo entre Rāma e o Ṛṣi Vasiṣṭha, o livro expõe a doutrina do Advaita Vedānta em toda a sua pureza, e os seus ensinamentos contêm o que de mais profundo existe na sabedoria hindu. O Yoga Vasiṣṭha era o livro preferido dos yogīs e ermitãos que viviam retirados no Himālaya, mas também era uma obra considerada fundamental para os reis e homens de estado da Índia. Não é fácil aceder à obra original pelo facto e só se poder fazer através de colecções particulares. Muitas são as traduções em várias línguas europeias que se dedicaram a fazer, cada uma usando os versos mais significativos, de acordo com o seu tradutor, mas nenhuma se aproximando do volume de versos da obra original. Traduções com preocupações de importância ficam aquém dos 2.000 slokas.

Fica, pois, ao critério de cada um a forma de selecção que vai sendo apresentada ao público. Esta tradução, pela forma simples e concisa de alguns ensinamentos é a primeira a ser apresentada no nosso site; haverá muitas outras mais complexas e completas que poderão vir a ser traduzidas futuramente

Nestes extractos seleccionados que passaremos a apresentar por capítulos encontram-se ensinamentos do Yoga tradicionais como são ensinados e postos em prática pelas mais altas autoridades espirituais da Índia. Trata-se de uma jóia de espiritualidade e sabedoria que apresenta as noções fundamentais do Vedānta numa forma mais exequível do que os tratados de estilo mais filosófico, sem perder, contudo, o que tem de elevado e de profundo. Os sábios antigos eram da opinião de que, quem estuda com atenção esta obra, e vive os seus ensinamentos, se eleva acima das limitações da matéria e, experimentando uma beatitude imutável no seu ser, leva os seus semelhantes a participar da sua própria exaltação espiritual, através da bondade e da verdadeira filantropia.

1ª Palestra
Quando o santo e sábio Vasiṣṭha, com hábito amarelo e levemente inclinado, fez a sua entrada, às seis da manhã, na assembleia real, o soberano e seus ministros levantaram-se e, todos de pé, exclamaram: “OM! Namo Nārayanaya, Mahātma!”(1)

O santo Ṛṣi(2) abençoou-os e, ocupando o assento mais elevado, começou a falar dirigindo-se ao príncipe Rāma:

«Qualquer que seja a companhia com que possa encontrar-se ao cumprir os deveres da vida, o homem sábio controla os movimentos da sua alma. Não deve ser absorvido pelas preocupações do mundo nem ocupar-se de pensamentos das coisas desta vida. Não se deve deixar a alma errar pelo extenso âmbito dos prazeres exteriores, nem apegar-se aos objectos e acções dos sentidos.

Deve repousar unicamente em buddhi(3) sem se deliciar com coisa alguma, que não a sua própria delícia. O homem sábio permanece concentrado por completo em si mesmo, e a sua tranquilidade de espírito é comparável à firmeza do topo do Himālaya, imutável em todo o tempo e em qualquer estação. Um estado de alma assim alcança a maturidade com o tempo e adquire-se com uma prática constante do Yoga(4) e com o serviço ao Mestre.

Então o yogī liberta-se tanto do sofrimento como do medo e supera as ilusões e aflições do mundo; não teme perder esse estado. Quem tiver alcançado esse objectivo aparta-se, com riso e desprezo, da turbulenta esfera da terra, como alguém que, desde uma cúspide, observa sorridente os objectos situados abaixo.

Ó Rāma, os mestres do Yoga Adhyatma(5) afirmam que um dos meios mais fáceis para alcançar esse estado é a suprema adoração a Deus, assim como o Yoga.
Ó Rāma, tu conheceste a verdade – ao saber que é Deus quem governa o mundo – e compreendeste a Natureza divina na totalidade do seu triplo estado(6) . Assim como não vês no oceano senão uma única e vasta substância, a água, tão pouco distingues no império do universo senão o Senhor Universal.

Assim como a percepção de uma flor é acompanhada da percepção do seu perfume, do mesmo modo o conhecimento de Ātman(7) é inseparável do conhecimento da alma. Tal como num espelho não se vê mais do que uma parte dos céus que tudo cobrem, também o omnipresente Ātman não pode ser percebido mais que numa parcela, no espelho da alma.

O Espírito Supremo, ilimitado no tempo e no espaço, dá a Si mesmo, por sua vontade própria e em virtude da sua omnipotência, as formas limitadas do tempo e do espaço. Sabe que o mundo nada tem de substancial, ainda que o possa parecer; não é mais que vazio, somente uma aparência criada pelas imagens e fantasias da alma. Sabe que o mundo é um teatro de sortilégios procedente da magia de māyā(8).

Este mundo todo é Brahman(9). O que existe fora dele? De onde poderia vir isso? De onde encontraria o lugar? O mundo é criação do erro e ídolo dos insensatos. Remove todo o desejo falacioso e todo o pensamento, ó Rāma, ó filho bem-amado, e recorda o teu sempre luminoso Ātman».

Rāma reflectiu nas palavras do santo instrutor.

«O que significa esta peregrinação que fazemos no mundo?», pensou, «e porque é que todos os seres humanos e animais se vêm forçados a entrar e sair do cenário deste teatro evanescente que é a vida? Qual é a natureza da nossa alma e como deve governar-se? O que é este māyā do universo? Qual é a sua origem e como poderemos enganá-la? Como é que ela encadeia a alma(10) e que vantagem e desvantagem há no desembaraçar-se desta ilusão? O que diz o Muni(11) dos métodos destinados a dominar os apetites do espírito e dos resultados por eles obtidos? O que diz da tranquilidade do espírito?

Os nossos corações a e as nossas almas são os que tendem a revelar o mundo fenoménico perante nós, e desta existência irreal, fazemos a realidade. Todas estas coisas estão entrelaçadas entre si nas nossas almas, e esfumam-se sempre que os nossos apetites mentais diminuem. A débil luz da razão vê-se eclipsada pelas nuvens sombrias das paixões e cobiças. Como poderei, pois, distinguir o verdadeiro do falso?

Por um lado a alma conduz-nos ao conhecimento espiritual, e por outra, desvia-nos para a mundanidade. Quando se acalmarão definitivamente as minhas ansiedades? Quando finalizarão as minhas inquietudes? Quando possuirá a minha alma a sua santidade? Quando é que o seu voo deterá o meu capricho para se concentrar na Verdade interior? Quando se absorverá a minha alma no Espírito Supremo, tal como uma onda agitada se apazigua no seio da calmaria do mar? Para quando a luz da razão dissipará esta nuvem sombria de ignorância que envolve a minha Essência divina com o véu desta lamentável forma?

Tenho de reflectir nos ensinamentos do bem-aventurado Sábio e depois sobre a conduta que deve seguir todo aquele que aspira à libertação(12). Quero praticar a virtude, quero participar em Satsangs(13) com uma intenção pura, e servir ao meu Instrutor. Tenho de ter ouvidos surdos para tudo o que não seja divino; tenho de viver na prece e na prática da meditação».

Notas
1. «Saudações a Deus, Senhor de todas as coisas! Ó grande alma»
2. Sábio que realizou Deus; alma perfeita o que alcançou o conhecimento da sua própria divindade
3. Faculdade de descriminação ou razão intuitiva. Aspecto superior da inteligência por oposição à alma inferior (manas)
4. Yoga aqui significa uma via – que tem como meta o conhecimento ou a iluminação – que consiste em ser discípulo sob a autoridade de um Mestre tradicional. Os quatro aspectos desta via do Yoga são:
I - Estudo da sua doutrina espiritual com exame de consciência e autocontrole
II- Prática da meditação segundo o método tradicional recebido
III- Serviço ao Mestre espiritual
IV- Vida de acordo com os preceitos religiosos (dharma) guiada conscientemente para a honestidade, a virtude, a bondade e a humildade, sempre tendo o cuidado de não prejudicar nenhuma criatura viva.
5. Literalmente,” o Yoga que se refere ao Se”. A sua base metafísica é não dualista (advaita) e o seu maior representante e comentador foi Sri Shankarachārya.
6. Diz-se que a natureza (Prakṛtī) é composta na sua totalidade por três qualidades fundamentais (guṇas), que são sattva (luz, harmonia), rajás (paixão, actividade), e tamas (obscuridade, inércia).
7. O verdadeiro “Se/Eu”; o Espírito imortal e imutável do homem.
8. O poder creador e auto condicionante do Senhor omnisciente e omnipresente; o meio irreal pelo qual o Espírito Supremo (Brahman) Se manifesta. Não possui nenhuma existência independente de Deus, e por si não se pode considerar nem como absolutamente existente, nem como não-existente. Trata-se do Poder Divino que permite à realidade espiritual apresentar-se como mundo fenoménico.
9. O Absoluto, designado assim porque não há nada no universo, passado, presente ou futuro relacionado com Ele. A palavra significa “Majestade” .Brahman é o Eterno, o não-condicionado e a suprema Realidade, sem segundo (advaita), sem atributos, sem acção e impossível de se aproximar d’ Ele mediante palavras ou pensamentos. O Avadhut Gītā diz. «Brahman não é nem o Conhecedor, nem o Conhecido; as Escrituras (Vedas) não têm como demonstrá-lo: as palavras não podem descrever esta Consciência absoluta; ante Sua Majestade, a alma está perdida. Como poderia eu descrever-te este Eterno?»
10. Jīva – a consciência individualizada.
11. Vidente
12. Moksa – Libertação da escravidão da existência mortal juntamente com todos os seus sofrimentos e limitações, através da aquisição do conhecimento espiritual. É a destruição da ignorância (avidyā), que proporciona ao yogī a libertação do ciclo recorrente do nascimento e da morte, assim como da realização do verdadeiro conhecimento de Si mesmo.
13. Assembleia tradicional de yogīs presidida por um Mestre tradicional, na qual ensina e medita a verdade espiritual.

Tradução para Português por Helena Gallis a partir da versão castelhana de:
Corniero, Alejandro; El Mundo esta en el Alma, Ediciones da la tradición Unánime,1994
   


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